Morrer na contramão atrapalhando o tráfego

Folha de São Paulo, domingo, 27 de maio de 2012
ABRAM SZAJMAN
TENDÊNCIAS/DEBATES
Nos idos de 1940, quem tomasse o bonde na avenida Paulista encontrava sentado, em um dos bancos, o prefeito Prestes Maia. Em outro, o professor Anhaia Melo. Os dois maiores urbanistas de São Paulo eram coerentes, usavam o mesmo transporte coletivo que defendiam como prioritário para a cidade.
Na década seguinte, como se sabe, a implantação da indústria automobilística inverteu essa lógica: o transporte sobre trilhos foi abandonado e as maiores cidades brasileiras se espraiaram, destinando ao automóvel uma parcela cada vez maior do espaço público. Estabeleceu-se, desde então, uma feroz batalha entre o homem e o carro, que está sendo vencida pelo último.
À poluição do ar e às vítimas de acidentes de trânsito se soma a degradação da qualidade de vida, já que praças, jardins, ciclovias e calçadas recebem muito menos atenção das autoridades do que vias pavimentadas, túneis, viadutos e estacionamentos.
As garagens cada vez maiores encarecem as construções e avançam até sobre o playground das crianças nos prédios residenciais. A expansão imobiliária é pautada em função da circulação de veículos -em detrimento dos pedestres- e o poder público, em vez de proibir o estacionamento nas ruas (como em Tóquio), o transforma em fonte de recursos por meio da zona azul.
Em São Paulo, há 7 milhões de veículos. Aqui, todos os dias, a maioria dos habitantes enfrenta de duas a quatro horas de trânsito. A briga por espaço em vagões com nove pessoas espremidas por metro quadrado causa atrasos, brigas e depredações. Nas duas últimas décadas, enquanto explodiam as vendas de automóveis e motocicletas, o transporte público permaneceu asfixiado pela falta de corredores de ônibus e de linhas do metrô.
Obras viárias que tomam do orçamento público, nas três esferas do governo, recursos que poderiam ser mais bem aplicados em saúde e educação, além de serem permanente foco de suspeita de superfaturamento e corrupção, revelam-se inúteis frente aos congestionamentos.
Isto porque os automóveis ocupam 80% de todo o espaço viário, transportando a média de 1,5 pessoa cada um -o que exige 50 carros para levar as mesmas 75 pessoas que caberiam confortavelmente num ônibus ou vagão de trem ou metrô.
Fator de inegável progresso ao tempo em que foi instalada, principalmente pela quantidade e qualidade dos empregos diretos e indiretos então gerados, a indústria automobilística se hipertrofiou no Brasil, transformando-se na espinha dorsal de um modelo mal copiado dos EUA, país que soube preservar suas ferrovias, por exemplo.
Isso sem falar da Europa, em cujas cidades os carros convivem respeitosamente com bondes e bicicletas.
No momento em que nosso país atrai as atenções do mundo como sede da Rio+20, da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, é chegada a hora de, corajosamente, começarmos a substituir esse paradigma ultrapassado e socialmente injusto.
As eleições municipais se aproximam. Podem e devem debater medidas de restrição ao automóvel -como o pedágio urbano e a introdução ou ampliação do rodízio- e de estímulo ao transporte coletivo, inclusive táxis, que podem ser barateados, pois hoje são mais caros aqui do que em outros países.
É preciso, sobretudo, reverter o modelo de dispersão urbana que espalhou indústria, serviços e habitações em função do carro e não do transporte público -no passado, fábricas e bairros operários se alinhavam ao lado da via férrea.
Devemos abandonar a cultura egoísta que transformou o automóvel em símbolo de status e no governante oculto, a manobrar os cordéis dos que se elegem com os votos das pessoas, mas governam para motores e pneus. Só assim o ser humano deixará de morrer na contramão atrapalhando o tráfego, como profetizou a canção de Chico Buarque.
ABRAM SZAJMAN, 72, é presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP)

No espaço público, sim. No virtual, jamais!

No dia 29 de maio de 2012, ao abrir o facebook fui informada que várias de minhas fotos da Marcha das Vadias de Belo Horizonte foram removidas do meu perfil, sem o meu consentimento.  Ao final da lista de exclusão a mensagem advertiu que era necessário conservar os Padrões de Comunidade do facebook para manter uma boa reputação do meu perfil. Manifesto aqui o meu repudio a essa ação, como estava escrito nas costas da manifestante de uma das fotos removidas “Eu Não me Encaixo nos seus Padrões” e coloco aqui um negrito: os peitos foram expostos em Praça e Rua Pública com anuência, inclusive, da Polícia Militar. Ao facebook digo: isto é censura! Isto é uma forma retrograda,  impositiva e equivocada de controlar o espaço virtual. Não nos calaremos!

“Que nada nos limite…
Que nada nos defina…
Que nada nos sujeite…
Que a liberdade
seja a nossa própria substância…”
Simone Beauvoir

Também no dia 29 postei no facebook  a mensagem acima e no dia 30, depois de quase 400 compartilhamentos e inúmeros comentários,  ela simplesmente desapareceu do meu perfil e de todas as outras pessoas que compartilharam comigo esta indignação. Também tive o perfil bloqueado por 24 horas, como castigo por essa desobediência civil.

Desta forma publico aqui as fotos removidas e Marcho Vadiamente no Espaço Virtual:

“Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos…Marchamos e marcharemos até que todas sejamos livres!” (Manifesto Marcha das Vadias 2011 – Brasília)

Priscila Musa

“Hoje, nosso slogan deveria ser ‘São Paulo não pode morrer’”

Sábado passado, o Correio da Cidadania publicou artigo do professor João Whitaker, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, sobre a cidade de São Paulo. Confiram abaixo.

São Paulo vai morrer

As cidades também morrem. Há meio século, o lema de São Paulo era “a cidade não pode parar”. Hoje, nosso slogan deveria ser “São Paulo não pode morrer”. Porém, parece que fazemos todo o possível para apressar uma morte anunciada. Pior, o que acontece em São Paulo tornou-se infelizmente um modelo de urbanismo que se reproduz país afora. A seguir esse padrão de urbanização, em médio prazo estaremos frente a um verdadeiro genocídio das cidades brasileiras.

Enquanto muitas cidades no mundo apostam no fim do automóvel, por seu impacto ambiental baseado no individualismo, e reinvestem no transporte público, mais racional e menos impactante, São Paulo continua a promover o privilégio exclusivo dos carros. Ao fazer novas faixas para engarrafar mais gente na Marginal Tietê, com um dinheiro que daria para dez quilômetros de metrô, beneficia os 30% que viajam de automóvel todo dia, enquanto os outros 70% se apertam em ônibus, trens e metrôs superlotados. Quando não optam por andar a pé ou de bicicleta, e freqüentemente demais morrem atropelados. Uma cidade não pode permitir isso, e nem que cerca de três motociclistas morram por dia porque ela não consegue gerenciar um sistema que recebe diariamente 800 novos carros.

Não tem como sobreviver uma cidade que gasta milhões em túneis e pontes, em muitos dos quais, pasmem, os ônibus são proibidos. E que faz desaparecer seus rios e suas árvores, devorados pelas avenidas expressas. Nenhuma economia no mundo pode pretender sobreviver deixando que a maioria de seus trabalhadores perca uma meia jornada por dia – além do duro dia de trabalho – amontoada nos precários meios de transporte. Mas em São Paulo tudo se pode, inclusive levar cerca de quatro horas na ida e volta ao trabalho, partindo-se da periferia, em horas de pico.

Uma cidade que permite o avanço sem freios do mercado imobiliário (agora, sabe-se, com a participação ativa de funcionários da própria prefeitura), que desfigura bairros inteiros para fazer no lugar de casas pacatas prédios que fazem subir os preços a patamares estratosféricos e assim se oferecem apenas aos endinheirados; prédios que impermeabilizam o solo com suas garagens e aumentam o colapso do sistema hídrico urbano, que chegam a oferecer dez ou mais vagas por apartamento e alimentam o consumo exacerbado do automóvel; que propõem suítes em número desnecessário, o que só aumenta o consumo da água; uma cidade assim está permanentemente se envenenando. Condomínios que se tornaram fortalezas, que se isolam com guaritas e muros eletrificados e matam assim a rua, o sol, o vento, o ambiente, a vizinhança e o convívio social, para alimentar uma falsa sensação de segurança.

Enquanto as grandes cidades do mundo mantêm os shoppings à distância, São Paulo permite que se levante um a cada esquina. Até sua companhia de metrô achou por bem fazer shoppings, em vez de fazer o que deveria. O Shopping Center, em que pese a sempre usada justificativa da criação de empregos, colapsa ainda mais o trânsito, mata o comércio de bairro e aniquila a vitalidade das ruas.

Uma cidade que subordina seu planejamento urbano a decisões movidas pelo dinheiro, em nome do discutível lucro de grandes eventos, como corridas de carro ou a Copa do Mundo, delega as decisões de investimentos urbanos não a quem elegemos, mas a presidentes de clubes, de entidades esportivas internacionais ou ao mercado imobiliário.

Esta é uma cidade onde há tempos não se discute mais democraticamente seu planejamento, impondo-se a toque de caixa políticas caça-níqueis ou populistas, com forte caráter segregador. Uma cidade em que endinheirados ainda podem exigir que não se faça metrô nos seus bairros, em que tecnocratas podem decidir, sem que se saiba o porquê, que o mesmo metrô não deve parar na Cidade Universitária, mesmo que seja uma das maiores do continente.

Mas, acima de tudo, uma cidade que acha normal expulsar seus pobres para sempre mais longe, relegar quase metade de sua população, ou cerca de 4 milhões de pessoas, a uma vida precária e insalubre em favelas, loteamentos clandestinos e cortiços, quando não na rua; uma cidade que dá à problemática da habitação pouca ou nenhuma importância, que não prevê enfrentar tal questão com a prioridade e a escala que ela merece, esta cidade caminha para sua implosão, se é que ela já não começou.

Nenhuma comunidade, nenhuma empresa, nenhum bairro, nenhum comércio, nenhuma escola, nenhuma universidade, nem uma família, ninguém pode sobreviver com dignidade quando todos os parâmetros de uma urbanização minimamente justa, democrática, eficiente e sustentável foram deixados para trás. E que se entenda por “sustentável” menos os prédios “ecológicos” e mais nossa capacidade de garantir para nossos filhos e netos cidades em que todos – ricos e pobres – possam nela viver. Se nossos governantes, de qualquer partido que seja, não atentarem para isso, o que significa enfrentar interesses poderosos, a cidade de São Paulo talvez já possa agendar o dia se deu funeral. Para o azar dos que dela não puderem fugir.

João Sette Whitaker Ferreira, arquiteto-urbanista e economista, é professor da Faculdade de Urbanismo da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie.

MARCHA DAS VADIAS BH

PORQUE  MARCHAMOS?

No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos.

Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamosantes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…todas merecemos respeito!

NÃO SE VENDE UMA CIDADE

por Palowa Mendes

Um dos grandes dilemas da sociedade do XXI é ocupação urbana, na maioria delas desordenada. Capitais de todo o mundo debruçam-se em busca de soluções que permitam redesenhar as cidades de forma sustentável, harmônica e que considerem o bem estar do cidadão. Encontrar alternativas que promovam o desenvolvimento econômico suas estruturas como: mobilidade eficiente, logística de escoamento de rede produtiva, fontes de energias limpas, gestão eficiente dos resíduos sólidos, saneamento, acesso moradia, educação, saúde e cultura e que garanta a manutenção de espaços públicos coletivos e a preservação do ecossistema local é pauta mundial. As soluções, que são desafiadoras, passam pelo envolvimento de todos os setores da sociedade civil e pelo compromisso do poder público em cumprir seu papel fundamental que é de norteador dessas buscas e garantidor do patrimônio público que é de todos. E esse é o motivo que causou completo estranhamento da população de nossa cidade quando o poder público municipal começa a se desfazer de seu patrimônio, a título de angariar fundos para seus cofres. O que se pode dizer sobre isso, a partir de que momento o patrimônio público se transforma em moeda para o imediatismo do capital? Até que ponto um cidadão, que está prefeito, pode se desfazer do patrimônio que é de todos, deixando para as gerações futuras de nossa cidade o problema da falta de espaços públicos? Até que ponto um administrador pode lançar mão do patrimônio que é do povo sem consultá-lo?
Dizer que estamos vendendo nosso patrimônio para conseguir recursos para investimentos como moradia popular – discurso usado pelo governo de FHC para privatizar o país – é no mínimo um discurso vazio. O Programa Minha Casa Minha do Governo federal investe recursos inclusive para aquisição de terrenos – BH é a única capital do país que não construiu nenhuma casa -, e para aqueles que não se lembram, em 2010, a Prefeitura já implantando sua política de se desfazer de seu Patrimônio colocou à venda os Mercados da Barroca e do Cruzeiro e a Rua Musas. Infelizmente o Mercado da Barroca foi vendido, um espaço que poderia ter sido utilizado para construção de equipamentos públicos – um Centro de Preparação Poliesportiva já que estamos a quatro anos das olimpíadas e não investimos na preparação de nossos jovens – e deu espaço a um grande empreendimento privado. Nesta semana, a Câmara Municipal de BH aprovou o projeto 1698/11 de autoria do Executivo e que lhe dá autorização para vendes 112 terrenos públicos, dentre eles duas Ruas ocupadas por duas Faculdades Privadas, dentre outros. Qual a diferença entre a ocupação irregular de uma empresa privada em terreno público e a ocupação de famílias sem moradia em terrenos públicos, como é o caso da ocupação Eliana Silva? Porque para os cidadãos mais vulneráveis a política a ser implantada é a desocupação e para setores privados vale a total colaboração do município? O que significará para esta cidade colocar no mercado inúmeros terrenos, muitos deles na zonal sul, para a especulação imobiliária? Estamos preparados para o adensamento imobiliário que se está propondo à cidade?
Nós cidadãos de BH, não fomos consultados, não assinamos um cheque uma procuração em branco para vender o nosso patrimônio, não fomos consultados e não concordamos em vender nossa cidade. Aliás, não se vende uma cidade.

Eu sou você amanhã: a experiência chilena e o ‘Minha Casa, Minha Vida’

por raquelrolnik

publicado em: http://raquelrolnik.wordpress.com/2012/05/10/eu-sou-voce-amanha-a-experiencia-chilena-e-o-minha-casa-minha-vida/

Acabo de retornar de uma visita ao Chile, onde fui conhecer a política habitacional do país e os processos de reconstrução pós-terremoto de fevereiro de 2010. O Chile foi um dos primeiros países do então terceiro mundo a adotar, durante a ditadura de Pinochet, no final dos anos 1970, as fórmulas neoliberais propostas pela Escola de Chicago em vários domínios das políticas, reduzindo, em tese, a intervenção do Estado, promovendo a participação do mercado e focalizando subsídios públicos aos grupos de extrema pobreza. Setores como a educação e serviços públicos foram privatizados, e políticas públicas, como as de habitação, foram reformadas.

Implementada sistematicamente durante mais de três décadas, inclusive durante os governos da Concertación (coalizão de centro-esquerda), o modelo de política habitacional adotado pelo Chile é quase igual à fórmula do programa “Minha Casa, Minha Vida”: subsídios públicos individuais permitem às famílias de menor renda comprar no mercado produtos ofertados por construtoras privadas. O modelo se completa com disponibilidade de crédito: quanto menor é a renda, maior é o subsídio e menor é a parcela de crédito que entra para viabilizar a compra.

Este modelo praticamente pôs fim à produção informal de habitação no Chile e criou, ao longo do período, mais de um milhão de soluções habitacionais, transformando-se em grande referência de política habitacional, louvada por organismos e consultores internacionais. Hoje, no entanto, além das manifestações estudantis maciças denunciando a privatização da educação, que produziu um ensino caro e de baixa qualidade, o Chile vive o dilema do que fazer com os seus “com teto”.

As centenas de milhares de casas e apartamentos da supostamente exitosa política habitacional chilena produziram um território marcado por uma segregação profunda, onde o “lugar dos pobres” é uma periferia homogênea, de péssima qualidade urbanística e, muitas vezes, também, de péssima qualidade de construção, marcada ainda por sérios problemas sociais, como tráfico de drogas, violência doméstica, entre outros. Para se ter uma ideia, vários conjuntos habitacionais já foram demolidos (!) e muitos outros se encontram em estudo para demolição.

Deixada para o mercado a decisão de onde e como deveria ser produzida, encarada como um produto que se compra individualmente, como um carro ou uma geladeira, a cidade que resultou é simplesmente desastrosa. Nada nos leva a supor, que, em menos de dez anos, não estaremos enfrentando no Brasil o mesmo cenário com o programa “Minha Casa, Minha Vida”.

Ocupação dos Espaços Públicos de Belo Horizonte

Gravado em 2011, o vídeo registra algumas das recentes movimentações juvenis em torno da ocupação de espaços públicos em Belo Horizonte. Por meio de intervenções em praças, ruas e viadutos, diversos grupos e coletivos têm questionado o modo como as instituições públicas lidam e regulam os espaços públicos da cidade.

Festas na praça, fóruns de discussões, encontros formativos, ocupações, blocos carnavalescos, passeatas e bicicletadas são algumas das maneiras que @s jovens têm encontrado para reagir à falta de uma cidade mais “humana” e inclusiva.

Longe de esgotar este amplo panorama, a Associação Imagem Comunitária, em parceria com os movimentos juvenis, busca mostrar as novas formas de ativismo da juventude em questões de interesse coletivo. Para compor o debate, conversamos com grupos que fazem parte da nossa rede e acompanhamos os seus percursos e manifestações pela capital mineira.

“Política urbana não é uma soma de obras”

O jornal Tribuna do Norte publicou, no último domingo (22), uma entrevista com a professora Ermínia Maricato, da FAUUSP, sobre algumas questões da política urbana brasileira. O trecho da conversa que dá título à entrevista é sem dúvida muito significativo. Confiram abaixo o texto completo.

“Política urbana não é uma soma de obras”

A professora Ermínia Maricato, que proferiu aula magna na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é uma profunda conhecedora da política urbana brasileira. Depois de participar da criação do Ministério das Cidades, que prometia trazer uma revolução na política federal de urbanismo, Ermínia se tornou uma crítica da política de governo em vigor no Brasil. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, a professora analisou as obras de mobilidade para a Copa do Mundo e o Ministério das Cidades, entre outros assuntos.

Como a senhora vê as obras de mobilidade para a Copa do Mundo?

Eu prefiro não abordar nada em relação à Copa do Mundo, porque ela é um momento que vai passar. E é um momento muito difícil. Eu acho que nós vamos ficar com uma  herança muito pesada no Brasil em relação à Copa do Mundo. A China ficou com uma herança pesada por conta das Olimpíadas, porque não sabe o que fazer com os elefantes brancos que criou. A África do Sul, que saiu de uma Copa, também tem uma herança pesada.  É gasto muito dinheiro e na verdade a repercussão para a população da África do Sul, que é muito pobre, não pesou muito. As obras de mobilidade estão servindo aos turistas na África do Sul porque é direcionado para o caminho aeroporto-hotel-estádio. Na verdade, a população africana pobre fica andando a pé, no transporte público de péssima qualidade, como é no Brasil.

E em relação ao Minha Casa Minha Vida?

Não é uma resposta rápida. Nós estamos desde a época do BNH (Banco Nacional de Habitação) sem política de habitação. Eu participei da criação do Ministério das Cidades e no próprio Ministério. Com o Governo Lula, a partir de 2003, voltou a se ter investimento em habitação e saneamento no país. Em mobilidade, não. Não existe essa política de mobilidade urbana a nível federal. Do governo sai recursos, houve uma regulação, mas faltou algo. É preciso duas pernas: uma é recurso e a outra é terra urbana. Terra urbana significa terra urbanizada, com água, esgoto, transporte, escola, energia, etc. Não temos uma das pernas porque não fizemos a reforma fundiária, na terra. Nem todo mundo tem direito à cidade. Pobres no geral não têm direito à cidade, ou seja a maioria. Não há acesso a essa terra urbanizada. E por que? Porque essas terras estão sob o domínio do mercado imobiliário. Nossas cidades hoje são pasto para o mercado imobiliário, elas são comandadas por esse mercado. E os preços estão subindo. Na hora em que o Minha Casa, Minha Vida entra em ação, você tem uma elevação imediata e absurda, escandalosa, dos preços dos imóveis e da terra. Isso porque nós entramos com o recurso privado e público e não entramos com a democratização do acesso à terra.

Quem não tem recurso fica relegado às periferias e áreas de risco?

Exatamente. O que sobra? Sobra aquilo que o mercado não quer e o que a lei não permite. Áreas de proteção ambiental e áreas de risco. Aquilo que é proibido de ser ocupado. É o que sobra para os pobres nesse país.

Existe uma subserviência do Estado em relação ao mercado imobiliário?

Não é só subserviente. O Estado sai na frente, abrindo avenidas, prolongando avenidas e valorizando as terras que estão ali ociosas, o que é uma coisa proibida na constituição. O Estado se adianta para favorecer condições para o mercado imobiliário.

É um parceiro então?

Total. Sem dúvida nenhuma. Não conheço muito Natal, mas vi que isso acontece. Natal repete de forma potencializada esse panorama. Há muitos loteamentos com pura especulação. Nós temos lei para mudar isso, mas falta força da sociedade civil.

Quais as falhas do Ministério das Cidades?

Ele tem política para obras e não política urbana. Política urbana não é uma soma de obras. É importante que haja recursos, mas política urbana é controle do uso e ocupação do solo. É isso que favorece o meio ambiente, dá sustentabilidade e justiça social. É o que ninguém faz. Pela constituição, é uma responsabilidade do município. A legislação torna isso complexo. O Governo Federal, quando faz  grandes obras para a Copa, na medida que isso não é regulado, está na verdade incentivando a especulação imobiliária, mesmo que ele não queira.

Quando Thor Encontrou Wanderson

por Paulo Nogueira

Thor

 

Os dois têm, em comum, o nome estranho e improvável e a nacionalidade brasileira.

Thor e Wanderson.

O resto são diferenças que jamais os levariam a se encontrar. Thor, 1%, para usar a expressão consagrada no protesto Ocupe Wall St, anda num carro de quase 3 milhões de reais, uma McLaren. As multas por excesso de velocidade que Thor recebeu no período “probatório”, em que o motorista é testado logo depois de receber carteira de motorista, deveriam tê-lo impedido de dirigir.  Mas regras no Brasil não costumam ser aplicadas para o 1%. A família de Thor tem dinheiro e as conexões que isso traz: não há muito tempo, o governador do Estado tomou carona no helicóptero do pai de Thor, um homem cuja maior ambição não é ser o homem mais sábio do mundo,  ou o mais feliz, ou o mais generoso — e sim o mais rico, um recordista de moedas.

Wanderson é o 99%. Bicicleta em vez de McLaren, e não por modismo ou por consciência ecológica. Simplesmente por necessidade. Feio por não ter a boniteza outorgada pelo dinheiro: não poderia comprar o corpo de jogador de rugby adquirido por Thor com duas horas de exercícios diárias, e nem as roupas, e nem os produtos de beleza. Pobre não pode aspirar a grandes feitos estéticos, e nem pequenos, para ser franco.

Wanderson

Contra todas as probabilidades, Thor e Wanderson, com suas vidas paralelas e opostas, acabaram se encontrando na noite de sábado, numa estrada.  Foi um encontro rápido. Thor em sua McLaren e Wanderson em sua bicicleta. Thor mal viu Wanderson. Salvo em circunstâncias excepcionais, os 99% são invisíveis.

No final da reunião relâmpago, Wanderson estava em pedaços, destruído pela McLaren. A imprudência, segundo o pai de Thor, foi de Wanderson.  Não há surpresa nisso porque no Brasil a culpa sempre foi dos 99%.

E agora Thor retoma sua vida de herdeiro enquanto Wanderson lentamente vai desaparecendo de nossas mentes e de nossas conversas até ser devolvido à miserável invisibilidade em que esteve imerso até o breve encontro de sábado à noite.

Vamos nos livrar da normalidade (Racismo e normalidade – Parte 3)

por Alex Castro

publicado em: http://papodehomem.com.br/vamos-nos-livrar-da-normalidade-racismo-e-normalidade-parte-3/

É impossível falar de racismo sem falar de normalidade. O racismo nada mais é do que uma implementação radical da normalidade. Só existe um “outro” que pode ser excluído porque existe uma normalidade intolerante que o define fora dela.

Vamos ver como isso funciona na prática.

A origem da “normalidade”

A ideia da “normalidade” nos parece tão normal ao ponto de ter sempre existido, mas ela não é tão normal assim.

Na língua inglesa, a palavra “normal” somente passa a ter a acepção de

“constituting, conforming to, not deviating or different from, the common type or standard, regular, usual”

por volta de 1840. Na nossa língua, o dicionário Houaiss registra a data de 1836 e define “normal” como

“conforme a norma, a regra; regular; que é usual, comum; natural; sem defeitos ou problemas físicos ou mentais; cujo comportamento é considerado aceitável e comum (diz-se de pessoa)”.

Reparem bem nessas datas. Não é tão longe assim. O conceito de “normal” tem a mesma idade do trem e da fotografia. E, assim como a humanidade viveu muito bem obrigado por milhares de anos sem andar de trem e sem tirar fotos, viveu também sem a ideia da normalidade.

Antes de 1840, “normal” significava “perpendicular”. A partir desse momento, com a ascensão da estatística e da eugenia, “normal” começa a se aproximar do conceito de “média estatística”.

Para isso, o primeiro passo é presumir que uma população humana possa ser normatizada, ou seja, que a maior parte dessa população seria de alguma maneira parte de uma “norma”, que estaria na média ou em torno dessa média. (Em consequência, se existe uma população padrão, na média, normal, então é porque necessariamente existe uma população abaixo do padrão, fora da média, anormal.)

Essa ideia, tristemente óbvia para nós que vivemos oprimidos por ela há um século e meio, não faz muito tempo era radical e revolucionária. E, em breve, deu dois filhotes importantíssimos.

Ilustração de texto científico inglês (1854) que buscava demonstrar como alguns povos africanos estava mais próximos dos macacos que os brancos. Eugenia em ação.

Ilustração de texto científico inglês (1854) que buscava demonstrar como alguns povos africanos estava mais próximos dos macacos que os brancos. Eugenia em ação.

Eugenia: o racismo científico e institucionalizado

Em primeiro lugar, a eugenia social e sua principal ferramenta prática, a antropometria.

Sem a noção de normalidade estatística, não faria sentido mensurar antropometricamente todo o corpo humano em busca das dimensões ideais, do nariz perfeito, do crânio mais simétrico.

A partir do momento em que se determina quais são as dimensões ideais no nariz humano mais perfeito, quanto mais um indivíduo ou grupo étnico se afasta desse ideal, mais involuído, imperfeito e anormal ele é.

Naturalmente, essas medições não eram neutras. Os cientistas brancos europeus naturalmente concluiram que as suas medidas eram as medidas do homem ideal e que as medidas dos homens que eles já oprimiam e exploravam nos trópicos eram as medidas dos homens involuídos que precisavam ser tutelados.

Antes de ser levada às últimas consequências pelos nazistas e então descreditada, a eugenia passou cem anos sendo amplamente aceita no ocidente.

Por exemplo, em O Carbúnculo Azul, Sherlock Holmes deduz que uma pessoa é intelectual somente pelo tamanho do seu crânio. Aqui, no Brasil do século XIX, fazíamos cálculos complexos de quantos imigrantes europeus teríamos que receber por ano para nos tornarmos um país branco até 1950 ou até o ano 2000.

Tudo isso parece muito legal e muito inócuo, até que os nazistas começaram a decidir quem era homem-superior e quem era escória-humana-pra-ser-exterminada com base nessas teorias, com base em quem tinha o nariz assim e o lóbulo da orelha assado.

Aí acabou a graça.

(Sobre eugenia, leia: Eugenia, a biologia como farsa.)

Houve época em que ter o nariz certo ou errado era a diferença entre ir ou não pra Auschwitz. Ilustração francesa de 1897.

Houve época em que ter o nariz certo ou errado era a diferença entre ir ou não pra Auschwitz. Ilustração francesa de 1897.

Psicanálise freudiana e a busca pela elusiva sexualidade normal

Como pensar o século XX sem a psicanálise freudiana e a ideia de que existe um desenvolvimento psicossexual normal do ser humano? Não vou repisar aqui o terreno já bem carpinado por Foucault: o conceito de normalidade em psicanálise é uma das forças mais opressoras da humanidade em todos os tempos.

Pensem comigo: é relativamente fácil determinar qual é o funcionamento normal, ou seja, correto, adequado, de acordo com os parâmetros, de um rim ou de um coração e, consequentemente, saber quando um rim não está funcionando direito e precisa ser consertado, retificado, normalizado.

Mas como determinar o que é um estado mental normal? O que é uma sexualidade normal?

O que é um comportamento social normal?

(Sobre psicanálise e normalidade, gosto muito, muito mesmo, desse artigo: A patologização da normalidade. É verdade que, no fim da vida, Freud começou a fugir desse conceito de normalidade, como explicado em O normal e o patológico em Freud. Por fim, sobre Foucault, recomendo A norma em Foucault & Foucault e normalidade sexual.)

Ilustração de uma teoria da beleza de acordo com os ângulos do rosto. Obviamente, os negros  eram não só os mais próximos dos macacos como os mais distantes do ideal de beleza clássica.

Ilustração de uma teoria da beleza de acordo com os ângulos do rosto. Obviamente, os negros eram não só os mais próximos dos macacos como os mais distantes do ideal de beleza clássica.

O normal daqui não é o normal dali

Se uma mulher leva um esporro do chefe e chora no meio do escritório, isso é visto como relativamente normal; afinal, mulheres são mais emotivas, mais sensíveis, blá blá. Se um funcionário homem chora depois da reprimenda, isso é muito mais grave, indica um distúrbio psicológico muito mais sério, essa pessoa está completamente sem controle emocional; afinal, homem não chora, blá blá.

Se um pai e um filho falam aos berros sempre no meio da rua, eles são uma família normal em Havana, onde todo mundo fala gritando pela rua, mas são elementos psicologicamente instáveis e perturbadores da ordem pública em Zurique, onde estão a um passo de ser forçosamente internados num hospícios pelos vizinhos.

Um homem branco que não consegue tolerar a ideia de usar um banheiro que foi usado por um negro é um cidadão normal na Atlanta de 1850 (aliás, na de 1950 também), mas tem uma patologia grave na Atlanta do ano 2000.

Ou seja, ao contrário do rim e do coração, nossos parâmetros de comportamento normal não podem ser separados de nossos preconceitos socialmente construídos, e que dependem do lugar e da época onde vivemos.

Chorar no escritório só nos parece mais grave e mais preocupante quando é um homem justamente por causa de nossas ideias pré-concebidas de como homens e mulheres devem se comportar no ambiente de trabalho.

Do mesmo modo, o comportamento normal em Havana é anormal em Zurique e, mais ainda, um comportamento sexual perfeitamente normal em 2012 poderia te levar preso em 1960, ou queimado em 1660.

Então, se o conceito de normal muda tanto, seja no tempo e no espaço, de um gênero para outro, de uma nacionalidade para outra, faz mesmo sentido falar em “normalidade”? Isso existe?

A normalidade serve pra alguma coisa?

(Um texto excelente sobre distúrbios psicológicos e conflitos culturais: “Do some cultures have their own ways of going mad?”)

"O Tipo Judeu" (1878), uma tentativa de estabelecer quais seriam as características antropométricas e frenológicas que determinariam o tipo judeu. Os nazistas adoraram essas pesquisas.'

“O Tipo Judeu” (1878), uma tentativa de estabelecer quais seriam as características antropométricas e frenológicas que determinariam o tipo judeu. Os nazistas adoraram essas pesquisas.

Os gays, esses anormais

Para não ir muito longe, durante décadas a psicanálise classificou a homossexualidade como uma perversão, uma doença, um distúrbio, uma condição anormal. Afinal, se o normal é homem gostar de mulher, então um homem que gosta de homem é anormal e o que é anormal tem que ser normatizado.

Foi só em 1973 que a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia fez o mesmo somente em 1985, e apenas em 1999 afirmou categoricamente que

“a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”

e que os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e/ou cura da homossexualidade.

Enquanto isso, no ato em si, tudo permaneceu igual. Os gays hoje não enfiam pau no cu uns dos outros de maneira mais psicologicamente sadia e menos pervertida do que em 1960.

Foram só os tempos que mudaram. Ainda bem.

(Sobre a “anormalidade” dos gays, leia Poder, anormalidade e homossexualidade: Aportes de Kinsey e Foucault.)

Compósitos de rostos de criminosos (1878), em uma tentativa de determinar as características antropométricas e frenológicas que levariam ao crime.

Compósitos de rostos de criminosos (1878), em uma tentativa de determinar as características antropométricas e frenológicas que levariam ao crime.

A normalidade é tentadora, mas mortal

A ideia de normalidade nos parece muito natural, muito sedutora, muito “normal”. Várias vezes por dia, defendemos alguma coisa dizendo que “isso é que é o normal” ou criticamos algo dizendo que “isso não é normal”. Mas raramente pensamos como essa ideia é insidiosa, perversa, excludente, opressora, tirânica.

Afinal, todos também temos nosso lado anormal. Aquele lado que não podemos falar em voz alta. Que nos envergonha. Mas… E daí? Ser anormal é errado por definição?

Se quase todos os homens têm tesão em mulher mas alguns poucos homens têm tesão em homens, e daí? Por que isso seria errado somente por não ser “normal”? Por que não encarar com naturalidade nossas diferenças ao invés de tentar forçosamente enfiar o grosso da espécie humana em um entendimento estreito de normalidade que, por definição, exclui outros tantos infelizes? Quem gosta de uma coisa que pouca gente gosta é errado, estranho, anormal só por estar em minoria?

Poucas coisas são mais nocivas e perversas do que essa nossa ideia de “normal”. Quanto antes nos livrarmos dela, melhor.

Não pode ser normal vivermos assim oprimidos pelo normal.

(Muitas das observações acima são paráfrases do livro Enforcing Normalcy: Disability, Deafness, and the Body, de Lennard J. Davis, a partir de trechos selecionados pelo Fernando Serboncini.)

Tipos de crânio e uma tentativa de determinar em quais profissões quais formatos de crânio eram mais comuns. França, 1891.

Tipos de crânio e uma tentativa de determinar em quais profissões quais formatos de crânio eram mais comuns. França, 1891.

O paradoxo da memória seletiva

Para encerrar essa série:

Algumas coisas temos que lembrar pra sempre, outras temos que esquecer. E quem foi que decidiu isso?

Algumas coisas temos que lembrar pra sempre, outras temos que esquecer. E quem decide qual é qual?

Alex Castro

Alex Castro é. Por enquanto. Em breve, nem isso. // Se gostou desse texto, dá uma olhada nos meus livros.
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