Escolher

O Brasil é um país grande, em todos os sentidos. Governar essa imensidão, em todas as escalas, depende da política, a arte da negociação. Não da negociata, que nunca é uma arte, antes vil negócio, mas da arte de entender e acordar aquilo que é possível entre partes que pensam e querem coisas diferentes e têm poder e forças desiguais. A democracia brasileira é jovem, muito jovem. Aos trancos e barrancos, seu último interregno durou 25 anos (votei pela primeira vez para presidente aos 36 anos, no ano em que comemorávamos o centenário da República).
Mais significativo que isso, no entanto, são os percalços da consolidação de uma República, onde todos sejam cidadãos. Não compartilhem apenas o direito de ter voz, mas o direito de se educar, de ter saúde, de morar dignamente, de ter trabalho, de ter alegria. Não são palavras vazias, representam coisas concretas, saneamento, moradia, escolas, transporte, emprego. Mal começamos a construir os mecanismos de participação e controle social das instituições que cuidam de tudo isso.
Não é fácil desmontar a cultura “farinha pouca, meu pirão primeiro”, baseada numa idéia de direito divino e de esperteza, que rege as ações de muitos de nós brasileiros na vida cotidiana, para construir, em seu lugar, a cultura da esfera pública e do espaço público. Dizer que todo o governo é corrupto, que todo político é corrupto ou que todas as ações e políticas implantadas são para o favorecimento e para o desvio de dinheiro público é refugiar-se no aparente conforto da pureza moral. Recusar-se ao embate político, à busca do que é bom e generoso em meio ao que é aviltante e egoísta, é recusar a responsabilidade de decidir, de escolher, cada dia, cada passo, com o olhar no horizonte da utopia, como diz Eduardo Galeano. É recusar a humanidade do erro e do acerto, a luta diária pelo que é melhor. É deixar para o outro, covardemente, o risco de fazer, de escolher, de entender a complexidade de uma sociedade que ainda não trata todos os seus cidadãos como gente.
Participar ativamente, manifestar, ir às ruas, e, principalmente, escolher,tudo isso faz parte do aprendizado democrático. Com seus erros e acertos. Indignar-se, apenas, e não abrir caminho na terra à sua frente, não leva a lugar nenhum.
Maria Elisa Baptista

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