Passeando pelas ruas e pelas páginas de jornais com o olhar do Dr. Ástrov do “Tio Vânia”

de Eduardo Moreira

 Originalmente publicado em: http://www.grupogalpao.com.br/blog/
 Tchékhov escreveu “Tio Vânia” entre 1896 e 1897. Ou, pelo menos, finalizou sua versão definitiva nesse período. O público que assiste a nossa montagem no Galpão Cine Horto, fica muito impressionado pelo discurso tão bem articulado e de uma clareza ecológica e ambientalista de tal forma contundente, proferida pelo doutor Ástrov, em pleno final do século XIX, quando a perspectiva de uma catástrofe dos recursos naturais era algo simplesmente impensável. Nosso autor criou um ecologista “avant-la- lettre” pelo menos uns sessenta anos antes da matéria começar a pontuar nossas manchetes diárias. Numa carta escrita no seu retiro em Ialta, endereçada a Olga Kníper, sua mulher e atriz do “Teatro de Arte de Moscou”, nosso autor diz que passa os dias escrevendo e plantando árvores. Ele tinha a convicção de que, assim como a arte e tudo que traz beleza à atribulada vida humana, também as árvores são capazes de “criar homens mais gentis e bem educados”, nas palavras da apaixonada Sonia se referindo ao trabalho desenvolvido por Ástrov, na recuperação das paisagens e no plantio de novos bosques.

Assim como ler livros jamais poderá fazer com que as pessoas se tornem piores ou menos virtuosas, também plantar e proteger as árvores e a natureza em geral certamente não poderá deseducar ninguém. Muito pelo contrário.Assim como a fruição da arte é fundamental para criar pessoas sensíveis, educadas e engajadas num projeto de sociedade e de bem comum, que extrapole o individualismo vazio, também o contato e a defesa da natureza é algo que se faz essencial para o desenvolvimento desse quesito.

Bom, digo tudo isso, para falar que as palavras do Doutor Ástrov me perseguem o tempo todo, especialmente quando caminho pelas desoladoras ruas da nossa metrópole, outrora chamada de “cidade jardim”.Nunca vi tantas árvores cortadas, a começar pelo parque Municipal, uma espécie de pulmão verde do caótico centro da cidade.Só para ficar próximo de casa, a rua Pitangui, onde fica situada a sede do Galpão,está hoje reduzida a uma sequência de tocos de árvores impiedosamente decepadas. E o que mais irrita é que toda essa depredação é promovida e maquiada com uma demagógica propaganda de cunho ecológico de bem estar individual. Nunca vi tanta destruição de casas e de árvores em quase todos os bairros de Belo Horizonte. Em nome de uma pretensa liberdade, deixa-se o poder econômico destruir impiedosamente nossas ruas e nossa paz.A cidade vai sendo rasgada e descaracterizada em nome de uma circulação elitista, feito para um transporte elitista de carros, quase na sua totalidade conduzidos por uma única pessoa. Enquanto isso, os pedestres caminham pelas vias assustados e ameaçados por vias em que se pratica a perversa inversão de que a prioridade é sempre o carro. E o resultado é uma poluição que avança, trazendo doenças. É só olhar para as árvores da cidade para sentir como vivemos num ambiente contaminado, desequilibrado, gerador de possíveis novas doenças decorrentes de “um delicado equilíbrio que foi rompido e que fará com que a vingança da natureza logo dê seus primeiros sinais”. Boa parte das árvores da cidade são vítimas de pragas e de doenças

Outro elemento presente de forma intensa na peça e, especialmente nas palavras do Dr. Ástrov , é o poder da beleza, como algo capaz de nos mobilizar, nos tirar da indiferença. E é muito triste  perceber como, cada vez mais, a cidade vai se tornando um amontoado de construções de gosto muito duvidoso,espigões verticais que não respeitam o nosso direito ao horizonte e aos raios do sol e cuja construção visa apenas a ganância, o lucro desmedido e a mais absoluta irresponsabilidade.

Num momento especialmente dramático para os interesses das futuras gerações no Brasil, em que um congresso dominado pela mais absurda irresponsabilidade de um poder econômico tipicamente capitalista periférico, regido pelo impulso de ganhar  o máximo no tempo mais curto, sem pensar nada no futuro e no legado que deixaremos para os que vierem depois de nós,acaba de aprovar um novo código florestal que abre caminho para mais destruição, nada mais atual do que dizer as palavras do dr. Ástrov, escritas há 113 anos atrás.

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