“Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo.” Malcolm X

O novo costuma assustar. Sobretudo àqueles que são mais avessos à mudança. A reação dos jornais mineiros a respeito da marcha do último sábado nos revela bastante a respeito da natureza do trabalho realizado nestas instituições a serviço da conservação do estado atual das coisas. Uma simples manchete, “Manifestantes depredam prédio da prefeitura”, demonstra não somente uma má vontade (ou seria preguiça?) na cobertura dos fatos, mas o claro viés que nossa grande mídia vem demonstrando desde o início do período aecista em que vivemos em Minas Gerais em relação à ação do Estado de forma geral.
A má vontade: qualquer calouro de curso de jornalismo que estivesse escrevendo a respeito do Movimento Fora Lacerda e cobrindo os eventos do sábado veria com clareza, mesmo antes de conversar com as pessoas que ali estavam, que se tratava de um evento visivelmente heterogêneo, de uma diversidade pouco comum em sua composição, que reunia não somente indivíduos de inserções radicalmente distintas (em termos de renda e classe social inclusive) na cidade, mas também uma constelação de organizações e movimentos que aderiram à marcha, e que não necessariamente participaram de sua concepção. Foi claramente visível que não existia uma unidade ou alguma coerência pré-estabelecida e coordenada por alguma organização em relação às ações de cada um destes pequenos grupos ali presentes, unidos em torno da oposição ao prefeito atual e ao que ele personifica e torna concreto (enquanto processo político). Tomar as atitudes de alguns ali presentes (neste caso, a pichação do prédio da prefeitura) como uma ação conjunta das mais de duas mil pessoas presentes na marcha, o que está implícito na manchete colocada acima, é uma distorção dos fatos, e é jornalismo de má qualidade – bastante representativo do que já estamos acostumados a ver nos jornais mineiros.
O viés: a marcha não se resumiu ao que aconteceu na Av. Afonso Pena, número 1212. Este é outro fator que grita em alto e bom som de tão óbvio para aqueles que acompanharam a caminhada coletiva pelas ruas da cidade naquela tarde. Trata-se da velha estratégia de não relatar nem a verdade completa ao mesmo tempo em que não se diz nenhuma mentira (assim como uma fotografia, que consegue tirar do quadro retratado aquilo que não interessa reportar, e posteriormente apresentar a imagem capturada como uma boa representação do conjunto dos fatos e eventos). O fato de que os jornalistas em questão decidiram escolher aquele ato específico dentre um conjunto de eventos muito maiores em torno de uma questão radicalmente mais ampla e profunda – que passa não somente pela reivindicação contra as ações arbitrárias de um prefeito que busca impor seu próprio sonho particular de cidade ideal a todos, mas chega, no limite, a um questionamento das regras e do modelo de democracia que temos instituído –   demonstra claramente a intenção do meio de comunicação que veiculou a notícia, que é a de desqualificar, descreditar e deslegitimar o movimento. Se este se declara apartidário e decide se posicionar em confronto com aqueles que estão no poder, sem declarar apoio ou adesão a partidos e grupos com projetos eleitoreiros concretos, os jornais fazem o exato oposto: demonstram claramente (só não vê quem não quer – para dizer em bom português) seu posicionamento e seu serviço prestado (literalmente), não somente ao status quo de forma mais ampla, mas aos indivíduos e aos projetos políticos que detêm o poder, e aos grupos de interesse que os sustentam.
É bem sabido que os jornais têm espaços distintos para apresentar os fatos e para interpretações que reflitam opiniões distintas a respeito destes. Também não é nenhuma novidade que a forma com que os jornais apresentam os próprios eventos ocorridos faz parte de uma estratégia discursiva ligada ao posicionamento editorial (e político) do próprio meio. Mas esta não é uma percepção crítica generalizada àqueles que têm suas opiniões diretamente influenciadas pela grande mídia. A luta pela “democratização da democracia”, e o combate aos processos que sustentam nossa pseudo-democracia enquanto tal, envolve também uma luta por meios de comunicação que reflitam as reais aspirações democráticas da população, informando, e não desinformando em função de interesses particulares escusos, a sociedade e a cidade como um todo.
Felipe Magalhães
[Ressalta-se que esta nota não representa o posicionamento do movimento acerca desta questão, apenas refletindo o pensamento de uma pessoa dentre as mais de 2 mil que saíram às ruas no sábado, justamente como as ações que ali ocorreram]
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3 Responses to ““Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo.” Malcolm X”


  1. 1 Gabriel Guerreiro 04/26/2012 às 3:20 PM

    Muito interessante seu texto, cara. Andava muito fechado nas questões socio-econômicas de SP e RJ, sem enchergar muito bem o resto do país. Obrigado por disponibilizar sua opinião.
    A grande mídia criminaliza os movimentos sociais mesmo. Quem está no poder não quer parar de mamar, só mostra o que não comprometa. E como a população é estrategicamente idiotizada – vítima de uma educação ou mercadológica (vestibular, profissionalizante) ou de total descaso, com falta de investimentos reais – , aceitam as informações tortuosas e desinformatizantes, sem capacidade nenhuma de questioná-las.
    É preciso realmente um esforço de quem luta por uma mídia alternativa, fontes alternativas de informação; falando a língua dessa nova demanda desinformada e desinstruída, que busca sair da escuridão.
    Ainda bem que existem pessoas como você, que não se resignam.

    Abraços

  2. 3 emorroidi 04/16/2013 às 3:59 AM

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