Relato de um canoeiro:

por Bebeto Bahia Duarte

Domingo passado tivemos um encontro entre amigos aqui em casa e, entre eles, um amigo de uma amiga que conheci nesse mesmo dia. É dentista e passou uma temporada na Amazônia cuidando dos dentes de índios. Narrou algumas histórias pra gente e a que mais me chamou a atenção foi a de um canoeiro que viu uma paca enorme na beira do rio e aproveitou pra caçá-la. Deu alguns tiros até acertar e conseguir a caça. Por perto as areias formavam uma praia no rio e ali mesmo ele abriu o bicho e já separou em partes a carne. Uma família de índios acompanhava e, ao final, ele deu a um menino desta família uma parte da paca que seria o pernil de um porco. Durante o percurso, este canoeiro ia distribuindo as partes da paca a todos os índios que encontrava. Parava o barco e dava a carne. Ao final, sobrou o que era suficiente pra ele. Este dentista nos chamou a atenção dizendo que estes índios não tem o hábito de acumular as coisas. Tudo é dividido. Portanto, entre eles, não existe qualquer espécie de corrupção e, com a fartura de alimentos que se pode encontrar numa mata como aquela, não há fome. Fui dormir pensando que muito do que acumulamos não usamos, muitas vezes deixamos comida perder na geladeira. Se num prédio existisse o hábito da divisão entre os vizinho, não haveria desperdício e, muito provavelmente, gastariam menos com alimentos, vestimentas, cultura. Quantos livros estão alimentando traças numa prateleira? Se houvesse essa divisão entre as pessoas de um bairro, haveria menos fome, mais contato humano, entre as coisas citadas acima e diversas outras coisas como a dependência de um governante seria também menor. Se uma cidade se mobilizasse e criasse o hábito da divisão, da troca, saberia andar com as próprias pernas e os seus representantes seriam um reflexo desta postura, pois não seria qualquer que daria conta de administrar uma sociedade tão sabida. Temos as ferramentas, falta-nos o interesse, a prática, o hábito. No bairro onde moro há vários pés de manga que estão como enfeites. Da manga é possível fazer pratos deliciosos. As famílias hoje estão cada vez menores. Como há muita manga sobrando, sobra também a sobremesa que pode servir ao vizinho, à alguém que tem fome nas ruas. Não é utopia tudo isso. É questão de agir. Muito mais do que reclamar do prefeito (merece sim o nosso protesto sempre que há alguma injustiça), é também fazer a nossa parte, colaborar.
Espero que isso cresça e quero estar junto deste canoeiro neste barco.

 

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