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Direito e Gênero: entre teoria e realidade

publicado em: http://blogueirasfeministas.com/2012/03/direito-e-genero-entre-teoria-e-realidade/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+BlogueirasFeministas+%28Blogueiras+Feministas%29

Em teoria, juridicamente falando, a estrutura social patriarcal estaria superada e garantida a igualdade entre homens e mulheres, igualdade de direitos e deveres em todos os âmbitos. São ambos plenos em sua dignidade e no exercício dos direitos a ela inerentes. Assim o art. 5º  que diz que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”. Assim também o art. 226, ao tratar da família, que diz que “Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. (…) § 5º – Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher. (…) § 8º – O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.”

Lady Justice – The Statue Of Thomas Andrews Hendricks. Foto de istorija (Darius Norvilas) no Flickr em CC, alguns direitos reservados

Em teoria, o debate feminista, como muitos pretendem defender, seria desnecessário, uma vez garantida a igualdade. Em teoria, a Lei Maria da Penha protege as mulheres vítimas de violência doméstica. Em teoria, o Código Penal disciplina de forma isonômica e proporcional condutas que violam bens jurídicos considerados fundamentais pela sociedade. Bens jurídicos, direitos, interesses e não valores morais.

Em teoria. Apenas em teoria. Ou melhor, apenas no discurso.

Há uma grande distância entre o discurso da teoria e a realidade. Há mesmo uma grande distância entre o discurso da teoria para o próprio conteúdo da teoria, ainda insuficiente.

A realidade é que, ainda que considerados os inúmeros avanços sociais e jurídicos,  vivemos em uma sociedade primordialmente fundada no patriarcado e alimentada pelo senso comum da cultura patriarcal. E a própria teoria (jurídica e legislativa) é, em parte, também resultado dessa cultura.

É certo que a expressão “patriarcado”, muito usada no feminismo, causa arrepios ou irritações por aí. Certo também que a evolução e os avanços sociais tem nos colocado em condições muito melhores que as do passado. Nenhuma das  observações, porém, é motivo suficiente para deixar de lado a sua análise. Especialmente quando se percebe que o patriarcado nos deixou um critério que permeia nosso modo de viver, nosso modo de pensar e até nosso modo de legislar. A cultura ou senso comum patriarcal criou uma série de dicotomias, baseada na distinção dos gêneros masculino e feminino. Dicotomias que indicam pares de qualidades ou características: público/privado, produtor/reprodutor, razão/emoção, sujeito/objeto e associou as primeiras dos pares ao gênero masculino e as segundas ao feminino, ao mesmo tempo em que as hierarquizou, qualificando as primeiras de modo superior às últimas.

Nesse modo de viver e pensar, reservou-se (e ainda é reservado) à mulher o espaço privado-reprodutor da vida. Na ordem social capitalista e patriarcal, cabe ao homem o espaço público e produtor, espaço em que a objetividade e a razão – nessa lógica considerados atributos próprios desse gênero – são fundamentais. Por ser mais emotiva – consideram -, mais capaz de sentimentos de abnegação e mais sensível, à mulher cabe o cuidado, a proteção e a condução do espaço doméstico e a função reprodutora.

Em razão desse modus estar tão enraizado em nossa cultura, a distância entre teoria jurídica e realidade e mesmo a distância entre o discurso da teoria e o conteúdo da teoria  são tão grandes. As dicotomias acima citadas funcionam como critérios e essencializam as características, condições e posições de cada gênero. Os reflexos se espalham por todos os âmbitos das relações sociais, mas esse texto faz referência apenas à sua influência no campo jurídico.

E por isso é necessário reconhecer que o direito (e o direito penal, meu objeto de estudo) tem gênero por também ser parte da sociedade patriarcal em que inserido. O paradigma de gênero e sua discussão, tão caros ao feminismo, ainda não foram devidamente inseridos na teoria jurídica. Acredita-se que a igualdade garantida na Constituição é reconhecimento suficiente da inexistência de discriminações de gênero e o debate assim e aí se estaciona, esquecendo que o Direito em sua teoria, em sua prática e  na constituição de seus órgãos e instituições é a repetição do mesmo modus, afinal é ele (o Direito) também um produto da cultura.

Como dito, meu objeto de estudo é o Direito Penal e, mais recentemente, a criminologia. Não quero entrar em pormenores, mas digamos que essa última procura entender os caminhos e razões da criminalização (da consideração do porquê uma conduta ser considerada crime e outra não e o porquê de algumas pessoas serem criminalizadas e outras não e daí por diante). Acontece que, efetivamente, o discurso criminológico e jurídico-penal não embarcou no paradigma de gênero e, ao assim proceder, permitiu que também nessa área fosse confirmado o pertencimento da mulher ao espaço privado-doméstico-reprodutor.

Em primeiro lugar, percebe-se que pouco ainda se conhece sobre a criminalidade feminina: que crimes praticam, em que condições, que mulheres são mais criminalizadas. A criminologia tem sido fundamental na avaliação, por exemplo, da seletividade do sistema penal que condena e encarcera a população pobre e negra do país (essa população pobre e masculina que não cumpre com sua função ou papel público-produtor, na lógica capitalista e patriarcal) , os mais vulneráveis e suscetíveis ao poder punitivo; ao mesmo tempo em que mostra que a prática de delitos das mais variadas espécies não escolhe raça ou classe social, mas as agências punitivas contribuem para a seleção de apenas alguns crimes de apenas alguns indivíduos.

A avaliação, no entanto, tem sido constantemente produzida de modo alheio ao recorte de gênero. Poucos são os autores (e falo mesmo em autores, em teoria, porque o debate ainda é bem ausente na prática dos juízos e tribunais) e os pesquisadores que procuram incluir esse recorte, buscando compreender quem é essa mulher criminalizada e por que ela é criminalizada. Pouco se percebe que, muitas das vezes, a dicotomia patriarcal é o próprio critério de avaliação judicial: essa mulher, que não cumpriu com seus deveres e papéis, que não assumiu corretamente seu papel de mãe e esposa, que não soube gerir um lar e delinquiu merece o cárcere ( independente de qual seja o crime praticado). Essa mulher, não corretamente disciplinada pelo controle informal social, agora o será pelo controle formal – e só o é por ter falhado em seu papel e por ter fugido ao controle do patriarcado.

Lady Justice – Foto de Vassilena no Flickr em CC, alguns direitos reservados

E assim a sala de audiência reproduz o cotidiano: a mulher condenada por não ser ofeminino.

Em segundo lugar, o próprio texto legal constrói uma criminalidade de gênero que tem por base o controle da sexualidade feminina e/ou a manutenção dos papéis sociais a ela reservados. Nesse ponto, alguns avanços são dignos de nota, como a retirada da expressão “mulher honesta” para identificar a possível vítima de posse sexual mediante fraude. (Retirada, no entanto, apenas em 2005. Retirada, efetivamente, apenas do papel, mas ainda presente no imaginário e na interpretação de juízes e demais atores do direito). A realidade, no entanto, é a construção e manutenção de uma  ”criminalidade de gênero” que ainda tem por conteúdo a imposição – social e moral – do papel de mãe, a ser representado no espaço privado-doméstico a ela reservado. E aqui basta o comentário de um único crime: ao criminalizar a mulher pelo aborto praticado, o direito penal consagra o controle do corpo feminino e do exercício de sua sexualidade, condenando-a (com e sem trocadilhos, com e sem ironias) ao papel de mãe. O corpo e a sexualidade femininos, assim quer o senso comum patriarcal e assim quer o direito penal, apenas tem uso e lugar para o cumprimento da função atribuída a essa mulher, nos pares de qualidades expostos anteriormente: a reprodução.

Não se reconhece o direito de escolha dessa mulher. Não se reconhece o direito sobre seu próprio corpo e o direito de exercício livre da sexualidade, fora das amarras morais do casamento e da função reprodutora.  A mulher que exerce qualquer desses direitos terá apenas duas escolhas: o cumprimento do papel que nunca escolheu ou o cumprimento da pena que nunca desejou.

E nesse ponto, assim como em todo o direito penal, como já mostrou a criminologia, uma seletividade se produz: a realidade mostra que as mulheres que abortam são das mais variadas idades, classes sociais, orientações religiosas. Na prática, no entanto, algumas são devidamente cuidadas e atendidas em clínicas particulares, onde realizam o aborto com segurança. Outras, sem dinheiro ou condições semelhantes, morrem, sofrem com as consequências de práticas abortivas irresponsáveis ou clandestinas ou são criminalizadas.

Por esses motivos, a introdução definitiva do recorte de gênero na análise jurídica se faz essencial. Só assim a dita distãnica entre teoria e realidade será descortinada e diminuída. Só assim se percebe o quanto o conteúdo dessa teoria nem mesmo é suficiente para garantir a igualdade nos moldes desejados pelo movimento feminista. Só assim para se perceber que, ainda, são negados direitos fundamentais a mulher, pela própria lei, pelo próprio direito.

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GO WHERE? SEX, GENDER, AND TOILETS

by Guest Blogger Marissa, Sep 2, 2010, 

publicado em: http://thesocietypages.org/socimages/2010/09/02/guest-post-go-where-sex-gender-and-toilets/

an average looking washroom sign where the men's and women's  washrooms are indicated with stick figures

Women’s and men’s washrooms: we encounter them nearly every time we venture into public space. To many people the separation of the two, and the signs used to distinguish them, may seem innocuous and necessary. Trans people know that this is not the case, and that public battles have been waged over who is allowed to use which washroom. The segregation of public washrooms is one of the most basic ways that the male-female binary is upheld and reinforced.

As such, washroom signs are very telling of the way societies construct gender. They identify the male as the universal and the female as the variation. They express expectations of gender performance. And they conflate gender with sex.

I present here for your perusal, a typology and analysis of various washroom signs.

[Editor: After the jump because there are dozens of them… which is why Marissa’s post is so awesome…]

The Universal Male

One of the ideas that supports patriarchy is the notion that a man can be representative of all humanity, or “mankind”, while a woman could only be representative of other women. For example, in politics we see “women’s issues” segregated from everybody issues.

Washroom signs illustrate this idea by depicting the male figure simply, and the female as some kind of elaboration on the male figure. This sign expresses in words what many do with images:

two washroom doors adjacent to each other. One reads wo, the other  reads men

The most common type of washroom sign, pictured at the top of this post, is another example. Typically, these signs depict men as people, and women as people in skirts:

the male figure is standard but the female is shaped like two  circles balancing on top of an umbrella

Two rectangular stick figures, one with legs, another with a  triangle where the legs should be

a slightly more stylized version of standard washroom signs

the man is a rectangle with legs, the woman is a rectangle with  legs and a bulge around her hips to indicate a skirt

the male is drawn very simply with perpendicular lines but the  female is more complex with extra lines to indicate her bust and a  skirt

In Iran, men are depicted as people, and women are people in skirts and hijabs:

the male figure is standard but the female figures silhouette  extends over her head to imply a hijab

Occasionally, we see that men are people, and women are people with waists:

the male is indicated by horizontal vertical lines topped with a  circle and the female is a similar design but one of the lines is  hourglass shaped

the male has a simple rectangular silhouette but the female has an  hourglass shape

Which highlights the absurdity of the construction of gendered bodies because, well, men have waists too.

In this sign, we see that men have torsos, and women have floating, disembodied boobs:
the man is indicated with a circle for the head, a rectangle for  body, and two tapered oblongs for legs. The woman has a circle for a  head with a tentacle-like extension representing hair. Under her head  are two circles, attached to nothing. After a gap, her legs appear.

Women also sprout tentacles from their heads

Finally, we have a sign that, while patronizingly insulting, is interesting in that it takes the assumption of the universal male to its logical conclusion. That is, if “men” is interchangeable with “people”, and women aren’t men, then women can’t really be considered people at all, can they?


the man is indicated with the standard stick-figure. The woman is indicated with a flower.

That is, if “men” is interchangeable with “people,” and women aren’t men, then women can’t really be considered people at all. But who wants to be a person when you can be a beautiful, delicate flower instead?

Opposite Sexes

There is another kind of washroom sign that, although based on the men-are-people/women-are-people-in-dresses trope, doesn’t quite fit. These signs depict men and women as triangles.

like the signs above, only the circles are no longer attached to   the triangles

headless triangles

two elongated triangles, one pointing down and one pointing up,  both with circles hovering over them

One is not an elaboration of the other. They are both simply triangles. These signs remain problematic, though, because they construct men and women as fundamentally opposite to one another. It also assumes that the viewer understands that the triangle side signifies either shoulders or a skirt, and that is not a given. Which becomes apparent when you consider this sign:

two obtuse triangles, one with the smallest acute angle pointing  downwards, the other with the smallest acute angle pointing upwards.  Both are topped with circles to indicate heads, and both have a single  line coming out the bottom to indicate legs

Unlike the previous signs, here the downwards pointing triangle identifies the women’s washroom, and the upwards pointing triangle signifies the men’s washroom. I assume that the angles are supposed to represent torpedo boobs and a pitched tent.

Gender, Sex, and Sexuality

In controversies over who is allowed to use which washroom, a recurring theme is the conflation of gender, sex and sexuality, as cis women insist on treating male-bodied women as some kind of threatening sexual predators. This conflation is illustrated by washroom signs themselves, which sometimes designate washrooms by gender, and sometimes by sex, sometimes accompanied by assumptions about sexuality.

Gender Performance

Many washroom signs do not depict the male as a universal stick figure. Instead, the distinction is made by playing up differences between how masculinity and femininity are performed. In doing so, the signs communicate essentializing notions about what makes a man or a woman. Most often, it is style of dress.



Foto by Fabrice Ducouret https://www.flickr.com/photos/f-auto






This pair of signs is interesting, because it might not immediately be apparent to the modern viewer that the individual pictured on the sign for the men’s washroom is, in fact, male.  It shows that the styles we associate with masculinity are not universal across time and space.

Then we have these signs which universalize gender performance to apply it to the insect world:

Butterflies are naturally feminine because they’re pretty, and beetles are naturally masculine because they’re not pretty.

Even more suggestive of the notion that “clothing makes the man” and woman, are the signs which do not show people at all, but just gendered apparel.


Some signs incorporate gendered posture: the woman is canting, or has her eyes demurely cast downward, while the man has his feet firmly planted on the ground, displaying his physical strength.




These are also suggestive of the behaviour we expect from men and women – women should be coy and submissive; men brash and dominating.

Sex

After stick-figures, signs showing different styles of dress for men and women seem to be the most common way to designate men’s and women’s washrooms. However, like transphobic people, some signs focus on what’s under the clothes. A couple of the following photos might be mildly NSFW.

These signs are of several kinds. All are essentializing and erase trans people and people with atypical sex organs.

The first is men-have-penises/women-have-breasts. I believe that these are indicative of the degree to which breasts have been sexualized in our society as, like the sign below, they seem to be oblivious to the fact that women have genitalia, and hence construct breasts as the female equivalent of the penis.



The second group is men-have-penises/women-have-vaginas.


It seems that vaginas are shown attached to women to a far lesser extent than breasts are.

Somewhat related to the last category are the signs that pose the question: do you stand or sit when you pee?



(A note from an anonymous commenter: …the photo of the pointers/setters is from a restaurant in Philadelphia called the White Dog Cafe, where I worked for many years. There are four single bathrooms, all named after types of dogs (punny, I know) – and all explicitly non-gendered. Those bathrooms were designed in part with the West Philadelphia queer community in mind; when I worked there I had many LGBTQ coworkers, including someone who was transitioning, and it was an incredibly supportive environment. Duly noted.)


Other signs use the secondary sex characteristics of animals:



This illustrates the way we assume the universality of the gender binary, when it is not universal. For example, hens have been known to behave like roosters, and then develop male secondary sex characteristics, making the news in Sweden and China.

There was also a rooster in Italy who started to lay eggs after a fox killed all the hens.

This sign is even more essentializing, specifying the chromosome pairs you need to use the washroom:

It also universalizes the gender binary to alien races (whose legs conveniently seem to abstractly represent human sex organs) and robots.

Conflating Sex, Gender, and Sexuality

Signs can vary between designating washrooms by sex and by gender because most people assume that they are the same thing.

Her thought bubble: “shopping”; His thought bubble: “football”

This sign covers all the bases. Male as universal/female as variation: He’s a simple egg-shape, she’s wearing a dress and lipstick. Biological sex: He has a minimalist penis, she has minimalist vagina. Gender performance: He’s thinking about football, she’s thinking about shopping. It’s almost funny that the graphic designer felt that so many different elements were necessary. It’s also interesting because it illustrates how total the conflation is and the rigidity of the resulting dichotomy. Women must meet standards of femininity. Men can’t wear lipstick or enjoy shopping. And they certainly can’t have vaginas.

There’s an element of absurdity to it. We don’t segregate washrooms because people have different interests. Nor is it because of people’s wardrobe choices since, obviously, women wear pants. And, as this sign from Utilikilts points out, it’s not unheard of for men to wear skirts.

We segregate washrooms because of sex. Because of  the presumed sexual interest of the opposite sex. That is, because of sexuality.

Specifically, because of male heterosexuality, which is assumed to be predatory. Heck, it’sexpected and accepted as predatory, to the extent that it’s joked about.

This is unfair to a lot of men. And it becomes an excuse for those men who are predatory.

The segregation of washrooms is based on an assumption of heterosexuality, predatory in men and passive and vulnerable in women; the association of sexuality with sex, and the conflation of sex and gender. In other words, it is nonsensical. One thing we don’t segregate washrooms by is sexuality.

Uh…?
Finally, here are some signs that I just found confusing. In Germany, women are represented by fire, and men are represented by water.

Whereas in Brazil, fire represents men. Women are
represented by flowers…

This one is from Sangunburi Crater, on Jeju Island in South Korea. I’m assuming there’s an explanation for why the woman has a scuba mask on her head, and why the man is golem, but I don’t know what it is.

UPDATE: Several people responded with explanations on threads where this post has been linked. Here is one of them: The woman diver is a haenyeo, or pearl diver – there is an independent haenyo subculture that is actually pretty kick-ass and unique to Jejudo. Only the women dive. ... The golem male represents a traditional totem of men wishing the pearl-divers good luck and safety on their journeys.


From an Applebee’s in Sao Paulo. The red sign is for the women’s washroom. Obviously.

Photo Sources:
Toilet Signs
because you value your soul
Dark Roasted Blend 12345
Blogoncherry
Akshay Gandhi’s Blog
Funny Photo Collection
Ahh.. Chewww!
1 Design Per Day

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Marissa has a bachelor’s degree in political science from the University of Toronto, with minors in sociology and history. She is currently finishing law school, and hopes to practice family law. She has been blogging at This Is Hysteria! for two months, where she writes about social justice issues, politics, culture and working in call centres.

Thanks to Lucy for pointing us to her fantastic post.

If you would like to write a post for Sociological Images, please see our Guidelines for Guest Bloggers.

O que é um homem? O que é uma mulher?

por 
em 08/03/2012 às 0:01 |

originalmente publicado em: http://papodehomem.com.br/o-que-e-um-homem-o-que-e-uma-mulher/

Ei, você aí. Você, com um pênis no meio das pernas. Você é homem, certo?

Certo?

Eu gostaria de te perguntar: de onde vem essa certeza? O que faz de um homem um homem? E o que faz de uma mulher uma mulher?

A primeira resposta costuma ser: o equipamento. O tal pinto. No meio das pernas. Ou a ausência dele, no caso das mulheres. Os médicos e os pais olham o bebê, veem certo penduricalho, marcam um “M” na ficha da criança. Se não tiver penduricalho, marcam “F”. Hoje dá até pra ver os aparatos antes do nascimento, por meio do ultrassom.

Mas, se for assim, que fazer com os transexuais? Por exemplo, João Nery, que fez a primeira cirurgia de troca de sexo para se tornar um homem do Brasil, em 1977. João nasceu Joana, com uma vagina. Mas não se sentia à vontade no próprio corpo. Odiava a menstruação, os seios. Na cirurgia experimental, João teve útero e mamas retiradas e passou a receber tratamento hormonal. Ele não ganhou um pênis: é muito raro para um transhomem ganhar um. Dependendo da técnica, a prótese pode não ter sensibilidade, e a pessoa pode perder a capacidade de sentir orgasmo. Ele contou sua história no livro Erro de Pessoa, de 1985, e no recente Viagem Solitária, de 2011.

Há também o caso inverso, o das transmulheres. Pessoas que nascem com pênis, mas não se sentem homens. Como Léa T., a top model transexual filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo. Léa, que nasceu Leandro, ainda não fez a cirurgia, mas pretende.

Podemos pensar: OK, essas pessoas nasceram com o corpo errado; elas têm um “distúrbio”, que pode ser corrigido com cirurgia. Mas, se é esse o caso, o que fazer com Buck Angel? Buck nasceu Susan, há 43 anos, nos Estados Unidos. Aos poucos, porém, Susan começou a se transformar em Buck, um transexual FtM (female-to-male, que mudou de mulher para homem, ou, simplesmente, transhomem). Buck nunca fez a cirurgia de troca de sexo. Ele se sente confortável com sua vagina, gosta de usá-la. Buck é um bem-sucedido ator pornô e é um cowboy – poderíamos chamar de “másculo”, na falta de termo melhor. Com uma vagina no meio das pernas.

Buck Angel já foi Susan. H ou M?

Um Y a mais, um Y a menos

Outras explicações do que faz um homem ou uma mulher também são biológicas: são os cromossomos, os tais XY. As mulheres têm XX. Diferença de uma letra, coisa à toa. Mas tudo que foi dito acima, sobre transexuais, se aplica aqui também.

Há ainda outros casos. Por exemplo, o dos intersexuais, pessoas que nascem com os dois aparelhos sexuais. Antigamente, eram chamados de hermafroditas. Uma pessoa com cromossomos XX, por exemplo, mas que tem tanto aparelho reprodutor masculino como feminino. Ou pessoa com cromossomos XY, mas que não teve os órgãos externos totalmente desenvolvidos. Pessoas de sexo ambíguo.

E aí tem a explicação hormonal. Homem que é homem tem mais testosterona. Mulher que é mulher tem mais estrógeno e progesterona. Os hormônios são os mesmos – o que varia é a quantidade. Mas é claro que isso também é individual. Uma mulher atleta, por exemplo, pode ter mais testosterona que um homem que não pratica esporte.

Ser homem, então, não está ligado a ter um pinto. Ou próstata. Ou cromossomos XY. Ou mais testosterona. A que está ligado, então?

Roupa de menina

Talvez homem seja aquele que gosta de se vestir como homem. Para as mulheres, a mesma coisa. Mas aí temos os – e as – travestis, e essa ideia também cai por terra.

O que a gente veste, afinal, muda com o tempo. Calça comprida já foi considerada inapropriada para mulheres. Saia ainda é considerada estranha para homens – mas na Escócia existem os kilts, que são parte da tradição do país. E o que aconteceria com um homem que se veste de mulher no Carnaval? Ele torna-se mulher? A mulher que veste terno é homem? E o modelo Andrej Pejic, tão andrógino que desfila tanto para marcas masculinas quanto para marcas femininas?


Link YouTube | Andrej Pejic: eu pegava!

Laerte, @ cartunista, por exemplo, veste-se como mulher. No início, considerava-se crossdresser, travesti. Hoje, essa percepção mudou, e Laerte se identifica, de fato, como mulher. Em geral. De vez em quando vai ao banheiro masculino, de vez em quando ao feminino. Isso cria um problema para quem vai escrever sobre ele/ela: devemos colocar “o” Laerte ou “a” Laerte? (Uma opção é usar linguagem inclusiva, como “@” ou “x” no lugar de “a” ou “o”). Obviamente, não é Laerte que está errad@. É a língua que está.

Homos, héteros, bis, as

Mais uma hipótese: homens são aqueles que gostam de transar com mulheres; mulheres, aquelas que gostam de transar com homens. Você já sabe aonde vou chegar, né? Na homossexualidade. Homens que gostam de homens, mulheres que gostam de mulheres. Não é questão de gênero. A pessoa pode mudar de sexo para se tornar um homem gay, por exemplo. Foi o caso de Adrian Dalton, modelo que nasceu Katherine, com vagina, era lésbica, fez a cirurgia para se tornar homem e hoje se sente atraído por homens.

Claro, ser gay ou hétero não são as únicas opções possíveis. Algumas pessoas são bissexuais. Outras são assexuais (sim, não gostam ou querem saber de sexo, e não tem nada de errado nisso). Outras se recusam a ser chamadas de uma ou outra forma, pois chamar-se de “bissexual” significaria admitir gostar de pessoas dos dois sexos – o que implicaria em concordar com a ideia de que gênero e sexo são binários e ignorar os casos de intersexo, transexualidade etc. E, claro, já vimos que a coisa não é assim tão simples.

Nem mesmo entre as outras espécies é tão simples. Em sua obra Evolution’s Rainbow, a bióloga Joan Roughgarden – que nasceu John – mostra que diversas espécies desafiam a ideia de que, na natureza, a divisão em dois sexos é a única possível.


Link YouTube |

Existe muito mais diversidade sexual na natureza do que a gente aprendeu nas aulas de biologia. “A divisão do sexo entre fêmea ou macho não é estável nem exclusiva”, diz ela. Muitos peixes, por exemplo, possuem os dois sexos ao mesmo tempo, enquanto outros passam de machos a fêmeas – ou vice-versa – ao longo da vida. Algumas espécies de pássaros têm mais de um tipo de macho, cada um com comportamento diferente.

Caixinhas

Complexo? Pois é. Ninguém disse que era fácil. Estamos falando de gente, afinal.

Nossa sociedade decidiu, em algum momento, dividir as pessoas em dois tipos: homens e mulheres.São caixinhas. A divisão podia ser entre seres altos e baixos, sardentos e lisos, pessoas com manchinha de nascença no joelho e pessoas sem manchinha. A sexualidade seria definida entre quem gosta de pessoas com manchinha e pessoas que não gostam, por exemplo. Em algumas sociedades, a coisa é mais fluida: existem as categorias de “masculino” e “feminino”, mas elas não são fixas. As pessoas podem passar de uma a outra ao longo da vida. Isso foi descrito por vários antropólogos, como Gregory Bateson, que, em sua obra Naven, narra as cerimônias rituais em que membros de uma tribo trocam de gênero. Ou Pierre Clastres, que, em A Sociedade Contra o Estado, fala da tribo brasileira dos guayaki, em que pode-se mudar de gênero ao se trocar o arco, típico dos homens, por um cesto, típico das mulheres. Lá também é possível cair em uma maldição e deixar de ser homem, sem, no entanto, virar mulher. (Os guayaki também são exemplo de tribo poliândrica, em que as mulheres podem ter mais de um marido ou parceiro, mas essa é outra história).

Na nossa sociedade, as caixinhas são mais ou menos fixas. A criança nasce e já se decide qual gênero ela deverá ocupar. E a partir desse gênero, que comportamento deverá assumir. Rosa para elas, azul para eles. Algumas crianças se identificam com a caixinha a que foram destinadas. Como uma mulher que nasce com vagina, sente-se mulher, e gosta de transar com homens. Ou homem que nasce com pinto, sente-se homem, gosta de transar com mulheres. Muitas pessoas, porém, não cabem nessas prateleiras. As pessoas vêm com diversos “equipamentos”, os quais não significam que serão de determinado gênero, e o gênero não significa que ela gostará dessas ou daquelas pessoas. É tudo independente.

Laerte pensando “fora da caixinha”

Energia masculina e feminina

Ouço falar muito, por exemplo, em “energia masculina” e “energia feminina”. A primeira seria assertiva, ágil, ativa. A segunda seria passiva, generosa, receptiva. Ora, essa é uma perspectiva binária. Sim, existem impulsos mais ativos e mais passivos, mas eu não chamaria isso de “masculino” ou de “feminino”. Desde crianças, as meninas aprendem a refrear sua energia ativa. Os meninos, a brecar sua energia passiva. Qualquer desvio da norma é punido com apelidos e tiração de sarro. A menina que quer subir em árvore é logo ensinada a comportar-se e ficar quieta desenhando, enquanto o irmão é incentivado a correr e aprender a ser menino.

Claro que isso gera conflitos, mesmo entre quem não é gay ou trans. Eu, por exemplo, nasci mulher, com aparelho reprodutor feminino, e me identifico como mulher. Até o momento, sou predominantemente hétero. Mas de vez em quando sinto alguns desconfortos. Quando alguém diz: “mulheres são mais delicadas” – me lembro dos meus estabacos pela casa, desastrada. “Mulheres são suaves” – sempre fui mais assertiva. Mulheres isso, mulheres aquilo. Se ser mulher é ter que caber dentro dessas definições, danou-se, não sou uma.

Azul para eles, rosa para elas

Por sorte, Margaret Mead vem em meu auxílio. Em 1935, a antropóloga escreveu o clássico Sexo e Temperamento, em que descreve três tribos da Nova Guiné, nas quais os comportamentos das mulheres e dos homens não equivaliam ao que se pensava ser o “essencial” de cada gênero. Havia uma tribo com mulheres agressivas, chefes do lar; outra em que tanto homens quanto mulheres eram agressivos; e uma em que ambos eram delicados, passivos. Ou seja: o que significa ser homem ou mulher é uma construção histórica, social. E muda com o tempo.

Não existe o “essencial” feminino ou masculino. Existe o que é feminino ou masculino conforme o contexto, a sociedade.

Simone de Beauvoir, um dos ícones do feminismo, escreveu:

“Não se nasce mulher; torna-se.”

O mesmo pode ser dito dos homens. A pessoa que nasce com vagina aprende a andar como mulher, a falar como mulher, a se vestir como mulher. Com sorte, quando crescemos, podemos quebrar tudo isso, descobrir o que nos serve, o que não nos serve. Vou fazer unha porque acho divertido, não porque é “coisa de mulher”. O homem tascará um “foda-se” para a sociedade e irá trabalhar meio período para ficar com as crianças.

O papo de cada um

E assim, no fim das contas, não dá pra dizer o que é ser mulher e o que é ser homem. O que vale é a forma como a pessoa se identifica: homem, mulher, gênero indefinido, terceiro gênero. No fundo, novos termos como transgênero ou assexual continuam sendo formas de colocar as pessoas em caixinhas. Aumenta-se o número de caixinhas – não são mais apenas duas -, mas não se elimina a necessidade delas.

Até porque não dá mesmo pra acabar com elas de repente. Como diz uma amiga socióloga, só porque as coisas são culturais não significa que sejam fáceis de mudar. E, enquanto categorias como homem/mulher/gay/hétero existirem, as pessoas continuarão a ser tratadas conforme o lugar onde elas se encaixam. O que faz com que a luta pelos direitos das mulheres, dos gays, dos transgêneros seja fundamental, mesmo que a gente saiba que essas divisões não servem para explicar o comportamento humano.

Talvez, no futuro, não seja preciso colocar seres humanos em caixinhas. Não sei como as pessoas formariam sua identidade sem essas categorias, como elas passariam a enxergar a si próprias se não houvesse essa separação de gênero. Mas, por enquanto, se elas pararem de achar que existe um “papo de homem” e um “papo de mulher”, já estaria de bom tamanho.

Jeanne Callegari

Jornalista e escritora, publicou o livro Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável, uma pequena biografia do autor gaúcho. Arrisca poemas e anda de bicicleta, muitas vezes com suas colegas das Pedalinas. Também escreve para o site Blogueiras Feministas</a). Discussões filosóficas e existenciais podem ser encaminhadas ao Facebook, esse enorme comedor de tempo, e ao Twitter.
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Pois a próxima geração vale a pena

Sim, a população fica mais consciente e questionadora com o passar dos anos. De fato o machismo não é uma invenção de mulheres chatas, feministas, e ainda estamos longe de erradicá-lo. Palmas para essa menininha que ousou perguntar: “Por que os brinquedos “de menina” se resumem a princesas e coisas cor-de-rosa, enquanto os “meninos” tem super-heróis e coisas coloridas?”

(para ativar legendas no YouTube, aperte no botão CC na barra do vídeo.)

A busca incansável por um feminismo dócil, ou, não é de você que devemos falar

Originalmente publicado em:

http://www.idelberavelar.com/archives/2010/12/a_busca_incansavel_por_um_feminismo_docil_ou_nao_e_de_voce_que_devemos_falar.php

kollontai.jpgUma das coisas que aprendi sendo amigo e interlocutor de Mary W é que a própria resistência (entendida em sentido freudiano) ao feminismo é um fenômeno sociologicamente interessante, um dado a se estudar, um caso, diria a Mary, com sua sintaxe e seu uso do negrito inconfundíveis. Essa sacada dela coincide com algo que eu lhe disse certa vez durante um chope: quando homens emitem “opiniões” sobre o feminismo, elas não costumam vir embasadas em bibliografia ou sequer em escuta da experiência das mulheresnarrada por elas próprias. Arma-se alguma capenga simetria entre machismo e feminismo, decreta-se que “as” feministas são isso ou aquilo e encerra-se o assunto sob viseiras, em geral acompanhado de algum choramingo contra “elas”, que são “radicais” ou “patrulheiras” (confesso que “barraqueira” eu ouvi pela primeira vez esta semana), sem que nenhum esforço tenha sido despendido na escuta do outro, neste caso na escuta da outra. Note-se, por favor (já que malentendido, teu nome é Internet), que não me refiro a uma opinião sobre tal ou qual leitura feminista de tal ou qual texto de Clarice Lispector, mas às emissões de “opinião” sobre o que “é” o feminismo. Essas, invariavelmente, são um desastre.

Essa prática sempre me pareceu espantosa, porque ninguém, nem mesmo um daqueles jornalistas mais caras-de-pau de MOSCOU, se arriscaria a ter “opinião” sobre, digamos, fenomenologia ou hermenêutica sem antes equipar-se minimamente para tanto. Todavia, sobre o feminismo, uma constelação de pensamentos, escritas e práticas políticas das mulheres não menos complexa,multifacetada, ampla e profunda que aquelas duas escolas, e sem dúvida mais influente que ambas, os homens, em geral, e com visível desconforto e pressa, acham que podem ter “opinião”, passar juízo, assim, sem mais nem menos, sem sequer dar um checada nas estatísticas de violência doméstica, estupro ou diferença salarial entre homens e mulheres ou ouvir uma feminista. Não falemos de ler alguma coisa de bibliografia, uma Beauvoir ou Muraro básica que seja. Acreditam sincera e piamente que essa sua atitude não tem nada a ver com o machismo.

Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais,assassinatos, estupros, incluindo-se estupros “corretivos” de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada!Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora.

Desfila-se todo o rosário dos melhores momentos do sexista: como posso ser machista se tenho mãe, mulher e filhacomo posso ser machista se quem passa minhas roupas é uma mulhercomo posso ser machista se de vez em quando ‘divido’ o serviço doméstico com elacomo podem considerar o feminismo um elogio se o machismo é um insultopor que as feministas ficam nos dividindopor que as feministas ficam sendo radicais demais e a longa lista de etecéteras bem conhecida das mulheres que têm um histórico de discussão do tema. Os caras sequer são capazes de renovar os emblemas frasais de sua ignorância.

Foi o caso, nestes últimos dias, de alguns dos blogueiros autoidentificados, a partir de um encontro recente em São Paulo, como “progressistas” (não está muito claro de onde vem nem para onde vai esse “progresso” nem em que consiste o “progredir”, mas é evidente que sou ferrenho defensor da primazia da autoidentificação: que cada um se chame como gosta, contanto que me incluam fora desta; este é um blog de esquerda). O progressismo blogueiro é visivelmente masculinista, e que ele reaja com tão ruidosa choradeira ao mero aflorar de uma crítica feminista é só mais uma óbvia confirmação do fato.

O acontecido já foi relatado por Cynthia SemíramisLola Aronovich, e só me interessa aqui como sintomatologia do blogueiro progressista que faltou à aula em que o feminismo explicava em detalhe como o pessoal está imbricado com o político, como a apropriação e a simultânea desqualificação do trabalho das mulheres têm sido componentes históricos de uma hierarquia de gêneros que se impõe com tremenda brutalidade. O blogueiro progressista provavelmente nem notou que o Jornal Nacional mais uma vez se permitiu comentários sobre a aparência de Dilma que jamais se permitiria sequer sobre Lula. Mas a Marjorie Rodriguesnotou.

Uma das características do masculinismo progressista é sua tremenda dificuldade em entender a lição de Ana que, escrita num contexto de discussão do racismo, também se aplica aqui: não é sobre você que devemos falar. Não é sobre seu umbiguismo, não é sobre seu desconforto, não é sobre a sua necessidade de que as feministas sejam dóceis (ou não “divisionistas”) o suficiente para que possam carimbar e avalizar o seu tranquilizador atestado de boa consciência. Pra isso o Biscoito Fino e a Massa recomenda outra coisa: psicanálise freudiana. No Brasil de Lula e Dilma, já não é coisa tão cara, pelo menos para a maioria dos que leem esta bodega.

O progressismo blogueiro refletiu pouco, me parece, sobre como até suas referências a si próprio estão encharcadas de sexismo. O encontro progressista em São Paulo (que contou com interlocutores e amigos meus, que foi uma bela iniciativa à qual fui convidado, e a cuja continuação eu desejo sucesso) foi, em várias ocasiões, apresentado por seus principais protagonistas, quase todos homens, como “o” encontro de blogueiros, “o primeiro encontro” nacional, “a primeira grande” reunião.

Ora, o que isso tem a ver com o sexismo?

O progressismo blogueiro formado por homens jornalistas oriundos da grande mídia ou pautados por ela desconhece tanto a história de blogolândia que, como diria Macedonio Fernández, se a desconhecesse um pouquinho mais, já não caberia nada. Isso não seria problema se ele não tivesse a pretensão de falar em nome de uma totalidade “progressista”. A primeira pessoa levada a um portal por seu trabalho em blogs foi uma mulher, Daniela Abade. A primeira vez que em um livro foi vendido via blogs aconteceu também num blog feminino, o Udigrudi. Talvez a mais massiva troca de experiências e formação de comunidade num livro de visitas de blog ocorreu pelo trabalho de duas mulheres feministas. Refiro-me ao Mothern de Laura Guimarães e Juliana Sampaio, que também representou a primeira vez em que um blog virou série de televisão. A mais longeva comunidade blogueira em atividade na rede provalvemente é a do imperdível Drops da FalCynthia Semíramis, a feminista cujo texto-resposta foi recusado no espaço que transformou “feminazi” em post, tem mais história na rede que qualquer das lideranças masculino-jornalístico-progressistas (é coautora, por exemplo, de um texto clássico sobre a questão jurídica na internet). De Marina WCláudia LettiMeg Guimarães, há uma história de pioneirismo de mulheres em blogolândia que se deveria conhecer com mais interesse e humildade, se é que a palavra “progressista” vai preservar ainda um farrapo de relação com alguma experiência que possa ser chamada de emancipatória.

Confesso que sinto um pouco de vergonha alheia quando vejo blogueiros progressistas referindo-se ao seu (notadamente importante, sublinhe-se) encontro como “o” encontro de blogueiros ou como “a primeira” reunião ou a si próprios como “os” progressistas. Tudo isso enquanto ignoram completamente a história que lhes precede, na qual o protagonismo feminino é indiscutível. Na história que lhes é contemporânea, o protagonismo feminino não é nada desprezível tampouco, mas também a ignoram.

O jornalismo masculino progressista não apenas desconhece essa história. Ele não parece interessado em conhecê-la, não suspeita que familiaridade com ela problematizaria alguns elementos de sua prática. Fazendo tantas referências adâmicas a si próprio, contribui para a invisibilização e o silenciamento da história de blogolândia construída pelas mulheres. Daquele jeito convicto bem próprio dos ignorantes em denegação, o blogueiro jornalista-progressista jura que isso que não tem nada a ver com o machismo. Provavelmente ele não também não se perguntou se essa invisibilização terá algo a ver com vícios oriundos de 100 anos de um modelo em que jornalistas, quase sempre homens, falavam, na maioria das vezes sobre assuntos que domina(va)m assombrosamente mal, e leitores e leitoras recebiam calados.

Caso o jornalismo blogueiro masculino progressista tenha inteligência, humildade e decência, escolherá escutar o que sobre o feminismo disseram as próprias feministas. A bibliografia não é exatamente pequena. Sempre se pode começar com O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, passar à Mística Feminina, de Betty Friedan, chegar a Problemas de Gênero [pdf], de Judith Butler, escolhendo, no caminho, mil outras veredas possíveis. Pessoalmente, sou fã da polêmica que se dá entre as feministas materialistas britânicas, em que uma teoria mais funcionalista das relações entre opressão de classe e opressão de gênero se enfrenta com uma teoriaenintitulada “sistemas duais”, que argumentava pela independência relativa entre capitalismo e patriarcado (embate sociológico dos bons, nos quais nunca, claro, se fixa uma conclusão, mas durante os quais se exploram hipóteses interessantes). Essa polêmica está apresentada num livro de Michelle Berrett, intituladoWomen’s Oppression Today, que seria uma ótima pedida traduzir. De Patrícia GalvãoRose Marie Muraro, é possível informar-se, um pouquinho que seja, sobre a história no Brasil.

Ninguém é obrigado a ser inteligente o tempo todo, mas quando se trata de aprender a escutar, humildade e decência costumam ser as duas qualidades mais importantes da trinca.
PS: A primeira oração do título é tirada de um texto de Paulo Candido. A segunda é tirada de um texto de Ana Maria Gonçalves. Na foto, Alexandra Kollontai, líder feminista da Oposição Operária russa da década de 1920 (daqui).

PSTU: Registro com alegria e gratidão que passei a fazer parte da seletíssima lista de recomendações do Blog do Sakamoto. Obrigado, Leonardo, a quem leio há tempos.

PSTU do B: O grupo que chamo neste texto de jornalismo blogueiro masculino progressista inclui desde amigos queridos e/ou pessoas que genuinamente admiro até pessoas com a qual tenho interlocução protocolar, com variados graus de interesse, até pessoas a quem não costumo ler. Ao contrário do que sempre faz este blog quando discorda de alguém, desta vez o grupo vai nomeado assim, no abstrato, sem links nem nomes, não porque ele seja homogêneo, mas porque, afinal de contas, não é de você que devemos falar.
Atualização em 21/12: Como toda polêmica, esta terá valido a pena se bons textos tiverem sido produzidos e posições tiverem sido explicitadas, reveladas. Tentando manter fidelidade ao subtítulo do post, recomendo os posts de Renata WinningNiara de OliveiraLola AronovichCris Rodrigues.

 

bela marcela

originalmente publicado em:

http://ebompraquemgosta.wordpress.com/2011/01/03/belamarcela/

outro dia me deparei com um texto em uma revista eletrônica no qual a autora enumerava as vantagens da abstinência sexual; não sou careta, dizia ela, mas “o sexo pode ser altamente prejudicial. (…) Um relacionamento conturbado pode piorar de vez e ter um super final trágico. O sexo pode causar enorme perturbação mental (…) Lembre-se então dos inúmeros casos de crimes passionais divulgados pela imprensa.

ah, o sexo, esse vilão. uma das dificuldades em lidar com o machismo é identificá-lo; a responsabilidade pela violência contra as mulheres é posta na beleza, sempre feminina, no tesão, sempre masculino (lembra do caso da hostilidade contra a geise de minissaia na uniban, quando renato janine escreveu um texto todo culpando a taradice dos alunos homens pelo ocorrido?), nas bebidas alcóolicas (a cerveja, coisa do diabo, que libera inibições e faz com que os maridos batam em suas mulheres!), enfim, tudo menos na estrutura social hierarquizada que incentiva e tolera violências contra mulheres. quer dizer: ao invés de se identificar como problema a depreciação de uma mulher pelo mero fato de sua feminilidade, o machismo é de tal forma naturalizado e imbricado nas relações e nas análises que há uma dificuldade enorme em se ver para além das maneiras mais imediatas pelas quais o machismo se dá costumeiramente. quer dizer: o marido que bate na mulher não o faz porque ele bebe e a cerveja torna os homens violentos, a mulher que é estuprada não o é porque usou minissaia ou porque é bonita, e se a foto do boquete que a professora fez foi parar na internet e destruiu sua carreira na sala de aula o problema não é que ela foi tonta de ter feito boquete. o problema está, como eu vivo falando por aqui (e confesso que ando cansada de retomar esse blablablá), em aceitar que sexo é coisa que prejudica mulheres e quem gosta é homem. que sexo e prazer sexual é pra eles, em detrimento delas. que o foco da ação humana é a metade masculina da humanidade, e às mulheres nos cabe receber – ou proteger-nos dessa ação, através da recusa, e de medidas preventivas tais como não usar roupas provocativas ou se casar com um cara que não goste de cerveja. o que também não é muito efetivo, porque, nessa sociedade cruel onde mulher é vítima, a qualquer momento você pode se apaixonar por um tonhão que depois publica na internet a sua foto com o pau dele na boca e acaba com a sua vida, oh o horror! o jeito mesmo é abstinência.

mas eu comecei esse papo pra falar da marcela temer, esposa do vice-presidente. me emocionei muito na posse da dilma, vendo a primeira mulher a assumir a presidência do meu país. não é pouca coisa, como sabemos. e a marcela temer tornou a cerimônia da posse da digníssima presidenta ainda mais linda. porque ela é linda. simples assim.

aí eu acesso a internet e descubro comentários do mais baixo nível contra marcela. pelo mero fato de ser mulher, bela e jovem, ela e seu casamento já foram julgados e condenados – aquela puta interesseira, que quer desviar a atenção para si! Aos invejosos, tenho o seguinte a dizer: o michel temer pode ser um político questionável, e não vou entrar nesse mérito aqui, mas ele, além de não ser nada feio, é um homem poderoso e bem sucedido, e poucas coisas são mais atraentes em um homem do que poder e sucesso. obviamente, não falta mulher querendo. da marcela, pouco se falou, e não se sabe muito – nem o nome não diziam, era “a mulher do temer”. se, dentre todas as jovens gostosas com quem o temer poderia se casar, ele casou com ela, ela há de ter outras qualidades, que ele conhece, além de ser jovem e gostosa; mas o que eu quero dizer é que ser gostosa, ser jovem e bonita, assim como ser mulher, não é algo que por si só baste para desqualificar alguém. isso não faz dela uma figura muda ou burra; o que o faz é o machismo de quem acredita nisso. isso parece tão óbvio que me dá até preguiça de escrever: se o cara bate na mulher, não é porque bebeu, é porque é violento e é amparado por uma estrutura social que permite esse tipo de violência, e não há nada na bebida por si só que cause violências; se a mulher é estuprada, não é porque usa minissaia, e não há na minissaia nenhuma característica inerente que justifique ou peça por um estupro; e, da mesma forma, não há na gostosura da mulher, ou na sua feminilidade mesma, nenhuma ligação direta, necessária ou imediata com as violências que podem cair sobre ela. as violências machistas às quais as mulheres estão sujeitas são responsabilidade do machismo e de cada um de seus perpetradores, não de sua condição de mulher, de gostosa, de feia. assim como a violência que um homem comete é responsabilidade dele, não da bebida, da minissaia, do sexo, e naturalizá-la como própria da posição masculina apenas contribui para perpetuar o problema, mascarando a sua causa real.

se uma mulher sofre violência enquanto ser sexual, é porque existe uma dinâmica machista na sexualidade que desfavorece as mulheres ali onde elas exercem sua sexualidade, e não porque ela foi sexual – e o que deve mudar, então, é essa dinâmica e esse modo de ver e sentir a sexualidade, e não o fato de a mulher ser sexual. elogiar a beleza de uma mulher não é algo violento por si mesmo. é uma tremenda babaquice machista insinuar ou dizer que a beleza da marcela a desqualifica enquanto pessoa, assim como é babaquice machista desqualificar o casamento dela com base apenas na diferença de idade e na sua beleza, e mais ainda, é uma tremenda babaquice machista achar que a beleza da marcela desqualifica não só a ela própria mas inclusive à dilma, ofusca a importância da sua posse, diminui a conquista da nação de ter uma representante do sexo feminino no mais alto posto político do país. não há nenhuma relação que encadeie o ato de perceber a beleza da marcela temer com um de menosprezar a posse da dilma. não há esse embate entre dilma, cérebro, poder, respeito, versus mulher do temer, corpo, beleza, depreciação. a mulher do temer não aparece na cerimônia da posse enquanto gostosa para roubar a cena e desviar a atenção do fato de que uma mulher também pode ser presidente pelo mero fato de ser miss. não é depreciativo que a mulher seja mulher, que seja bonita, que use batom ou minissaia ou tenha uns peitos deliciosos; nada disso é incompatível com ser alguém digno de respeito, e mesmo digno de um cargo fundamental de liderança. o que é depreciativo e deve ser combatido é essa lógica que liga irremediavelmente a beleza à feminilidade, e ambas a uma posição inferior e limitada de subserviência. essa lógica é apenas reafirmada se entendermos que a presença da marcela na cerimônia da posse e sua beleza deve ser ignorada para que a dilma possa brilhar; ela nunca será combatida se tentarmos sufocá-la identificando na beleza feminina, na mulher bonita, no seu papel ou no seu notar, o inimigo que confina toda mulher ao limite do enfeite. o buraco é mais embaixo; o inimigo é, antes ainda, esse tipo de associação torpe que insiste em aparecer sem problematizações.

um beijo pra dilma e pra marcela temer. espero que as meninas do país não cresçam achando que devem escolher entre serem inteligentes e respeitadas ou bonitas e sexuais.

Parabéns a primeira Presidenta do Brasil – Dilma Rousseff

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Só a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como outro.” (Beauvoir, Simone 1987:13)