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Vamos nos livrar da normalidade (Racismo e normalidade – Parte 3)

por Alex Castro

publicado em: http://papodehomem.com.br/vamos-nos-livrar-da-normalidade-racismo-e-normalidade-parte-3/

É impossível falar de racismo sem falar de normalidade. O racismo nada mais é do que uma implementação radical da normalidade. Só existe um “outro” que pode ser excluído porque existe uma normalidade intolerante que o define fora dela.

Vamos ver como isso funciona na prática.

A origem da “normalidade”

A ideia da “normalidade” nos parece tão normal ao ponto de ter sempre existido, mas ela não é tão normal assim.

Na língua inglesa, a palavra “normal” somente passa a ter a acepção de

“constituting, conforming to, not deviating or different from, the common type or standard, regular, usual”

por volta de 1840. Na nossa língua, o dicionário Houaiss registra a data de 1836 e define “normal” como

“conforme a norma, a regra; regular; que é usual, comum; natural; sem defeitos ou problemas físicos ou mentais; cujo comportamento é considerado aceitável e comum (diz-se de pessoa)”.

Reparem bem nessas datas. Não é tão longe assim. O conceito de “normal” tem a mesma idade do trem e da fotografia. E, assim como a humanidade viveu muito bem obrigado por milhares de anos sem andar de trem e sem tirar fotos, viveu também sem a ideia da normalidade.

Antes de 1840, “normal” significava “perpendicular”. A partir desse momento, com a ascensão da estatística e da eugenia, “normal” começa a se aproximar do conceito de “média estatística”.

Para isso, o primeiro passo é presumir que uma população humana possa ser normatizada, ou seja, que a maior parte dessa população seria de alguma maneira parte de uma “norma”, que estaria na média ou em torno dessa média. (Em consequência, se existe uma população padrão, na média, normal, então é porque necessariamente existe uma população abaixo do padrão, fora da média, anormal.)

Essa ideia, tristemente óbvia para nós que vivemos oprimidos por ela há um século e meio, não faz muito tempo era radical e revolucionária. E, em breve, deu dois filhotes importantíssimos.

Ilustração de texto científico inglês (1854) que buscava demonstrar como alguns povos africanos estava mais próximos dos macacos que os brancos. Eugenia em ação.

Ilustração de texto científico inglês (1854) que buscava demonstrar como alguns povos africanos estava mais próximos dos macacos que os brancos. Eugenia em ação.

Eugenia: o racismo científico e institucionalizado

Em primeiro lugar, a eugenia social e sua principal ferramenta prática, a antropometria.

Sem a noção de normalidade estatística, não faria sentido mensurar antropometricamente todo o corpo humano em busca das dimensões ideais, do nariz perfeito, do crânio mais simétrico.

A partir do momento em que se determina quais são as dimensões ideais no nariz humano mais perfeito, quanto mais um indivíduo ou grupo étnico se afasta desse ideal, mais involuído, imperfeito e anormal ele é.

Naturalmente, essas medições não eram neutras. Os cientistas brancos europeus naturalmente concluiram que as suas medidas eram as medidas do homem ideal e que as medidas dos homens que eles já oprimiam e exploravam nos trópicos eram as medidas dos homens involuídos que precisavam ser tutelados.

Antes de ser levada às últimas consequências pelos nazistas e então descreditada, a eugenia passou cem anos sendo amplamente aceita no ocidente.

Por exemplo, em O Carbúnculo Azul, Sherlock Holmes deduz que uma pessoa é intelectual somente pelo tamanho do seu crânio. Aqui, no Brasil do século XIX, fazíamos cálculos complexos de quantos imigrantes europeus teríamos que receber por ano para nos tornarmos um país branco até 1950 ou até o ano 2000.

Tudo isso parece muito legal e muito inócuo, até que os nazistas começaram a decidir quem era homem-superior e quem era escória-humana-pra-ser-exterminada com base nessas teorias, com base em quem tinha o nariz assim e o lóbulo da orelha assado.

Aí acabou a graça.

(Sobre eugenia, leia: Eugenia, a biologia como farsa.)

Houve época em que ter o nariz certo ou errado era a diferença entre ir ou não pra Auschwitz. Ilustração francesa de 1897.

Houve época em que ter o nariz certo ou errado era a diferença entre ir ou não pra Auschwitz. Ilustração francesa de 1897.

Psicanálise freudiana e a busca pela elusiva sexualidade normal

Como pensar o século XX sem a psicanálise freudiana e a ideia de que existe um desenvolvimento psicossexual normal do ser humano? Não vou repisar aqui o terreno já bem carpinado por Foucault: o conceito de normalidade em psicanálise é uma das forças mais opressoras da humanidade em todos os tempos.

Pensem comigo: é relativamente fácil determinar qual é o funcionamento normal, ou seja, correto, adequado, de acordo com os parâmetros, de um rim ou de um coração e, consequentemente, saber quando um rim não está funcionando direito e precisa ser consertado, retificado, normalizado.

Mas como determinar o que é um estado mental normal? O que é uma sexualidade normal?

O que é um comportamento social normal?

(Sobre psicanálise e normalidade, gosto muito, muito mesmo, desse artigo: A patologização da normalidade. É verdade que, no fim da vida, Freud começou a fugir desse conceito de normalidade, como explicado em O normal e o patológico em Freud. Por fim, sobre Foucault, recomendo A norma em Foucault & Foucault e normalidade sexual.)

Ilustração de uma teoria da beleza de acordo com os ângulos do rosto. Obviamente, os negros  eram não só os mais próximos dos macacos como os mais distantes do ideal de beleza clássica.

Ilustração de uma teoria da beleza de acordo com os ângulos do rosto. Obviamente, os negros eram não só os mais próximos dos macacos como os mais distantes do ideal de beleza clássica.

O normal daqui não é o normal dali

Se uma mulher leva um esporro do chefe e chora no meio do escritório, isso é visto como relativamente normal; afinal, mulheres são mais emotivas, mais sensíveis, blá blá. Se um funcionário homem chora depois da reprimenda, isso é muito mais grave, indica um distúrbio psicológico muito mais sério, essa pessoa está completamente sem controle emocional; afinal, homem não chora, blá blá.

Se um pai e um filho falam aos berros sempre no meio da rua, eles são uma família normal em Havana, onde todo mundo fala gritando pela rua, mas são elementos psicologicamente instáveis e perturbadores da ordem pública em Zurique, onde estão a um passo de ser forçosamente internados num hospícios pelos vizinhos.

Um homem branco que não consegue tolerar a ideia de usar um banheiro que foi usado por um negro é um cidadão normal na Atlanta de 1850 (aliás, na de 1950 também), mas tem uma patologia grave na Atlanta do ano 2000.

Ou seja, ao contrário do rim e do coração, nossos parâmetros de comportamento normal não podem ser separados de nossos preconceitos socialmente construídos, e que dependem do lugar e da época onde vivemos.

Chorar no escritório só nos parece mais grave e mais preocupante quando é um homem justamente por causa de nossas ideias pré-concebidas de como homens e mulheres devem se comportar no ambiente de trabalho.

Do mesmo modo, o comportamento normal em Havana é anormal em Zurique e, mais ainda, um comportamento sexual perfeitamente normal em 2012 poderia te levar preso em 1960, ou queimado em 1660.

Então, se o conceito de normal muda tanto, seja no tempo e no espaço, de um gênero para outro, de uma nacionalidade para outra, faz mesmo sentido falar em “normalidade”? Isso existe?

A normalidade serve pra alguma coisa?

(Um texto excelente sobre distúrbios psicológicos e conflitos culturais: “Do some cultures have their own ways of going mad?”)

"O Tipo Judeu" (1878), uma tentativa de estabelecer quais seriam as características antropométricas e frenológicas que determinariam o tipo judeu. Os nazistas adoraram essas pesquisas.'

“O Tipo Judeu” (1878), uma tentativa de estabelecer quais seriam as características antropométricas e frenológicas que determinariam o tipo judeu. Os nazistas adoraram essas pesquisas.

Os gays, esses anormais

Para não ir muito longe, durante décadas a psicanálise classificou a homossexualidade como uma perversão, uma doença, um distúrbio, uma condição anormal. Afinal, se o normal é homem gostar de mulher, então um homem que gosta de homem é anormal e o que é anormal tem que ser normatizado.

Foi só em 1973 que a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia fez o mesmo somente em 1985, e apenas em 1999 afirmou categoricamente que

“a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”

e que os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e/ou cura da homossexualidade.

Enquanto isso, no ato em si, tudo permaneceu igual. Os gays hoje não enfiam pau no cu uns dos outros de maneira mais psicologicamente sadia e menos pervertida do que em 1960.

Foram só os tempos que mudaram. Ainda bem.

(Sobre a “anormalidade” dos gays, leia Poder, anormalidade e homossexualidade: Aportes de Kinsey e Foucault.)

Compósitos de rostos de criminosos (1878), em uma tentativa de determinar as características antropométricas e frenológicas que levariam ao crime.

Compósitos de rostos de criminosos (1878), em uma tentativa de determinar as características antropométricas e frenológicas que levariam ao crime.

A normalidade é tentadora, mas mortal

A ideia de normalidade nos parece muito natural, muito sedutora, muito “normal”. Várias vezes por dia, defendemos alguma coisa dizendo que “isso é que é o normal” ou criticamos algo dizendo que “isso não é normal”. Mas raramente pensamos como essa ideia é insidiosa, perversa, excludente, opressora, tirânica.

Afinal, todos também temos nosso lado anormal. Aquele lado que não podemos falar em voz alta. Que nos envergonha. Mas… E daí? Ser anormal é errado por definição?

Se quase todos os homens têm tesão em mulher mas alguns poucos homens têm tesão em homens, e daí? Por que isso seria errado somente por não ser “normal”? Por que não encarar com naturalidade nossas diferenças ao invés de tentar forçosamente enfiar o grosso da espécie humana em um entendimento estreito de normalidade que, por definição, exclui outros tantos infelizes? Quem gosta de uma coisa que pouca gente gosta é errado, estranho, anormal só por estar em minoria?

Poucas coisas são mais nocivas e perversas do que essa nossa ideia de “normal”. Quanto antes nos livrarmos dela, melhor.

Não pode ser normal vivermos assim oprimidos pelo normal.

(Muitas das observações acima são paráfrases do livro Enforcing Normalcy: Disability, Deafness, and the Body, de Lennard J. Davis, a partir de trechos selecionados pelo Fernando Serboncini.)

Tipos de crânio e uma tentativa de determinar em quais profissões quais formatos de crânio eram mais comuns. França, 1891.

Tipos de crânio e uma tentativa de determinar em quais profissões quais formatos de crânio eram mais comuns. França, 1891.

O paradoxo da memória seletiva

Para encerrar essa série:

Algumas coisas temos que lembrar pra sempre, outras temos que esquecer. E quem foi que decidiu isso?

Algumas coisas temos que lembrar pra sempre, outras temos que esquecer. E quem decide qual é qual?

Alex Castro

Alex Castro é. Por enquanto. Em breve, nem isso. // Se gostou desse texto, dá uma olhada nos meus livros.
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Qual é a cor da Turma da Mônica? (Racismo e normalidade – Parte 2)

por 

publicado em: http://papodehomem.com.br/racismo-e-normalidade-2/

É impossível falar de racismo sem falar de normalidade. O racismo nada mais é do que uma implementação radical da normalidade. Só existe um “outro” que pode ser excluído porque existe uma normalidade intolerante que o define fora dela.

Vamos ver como isso funciona na prática.

A cor do faxineiro

Estava lendo um romance americano. Um dos personagens é faxineiro de escola. As crianças fazem pouco dele. Quando criança, seu pai (que batia na mãe) massacrou toda sua família, menos ele.

Quinhentas páginas depois, sou pego de surpresa pela descrição dos cabelos ruivos de sua irmã. Percebo, de repente, para minha imensa surpresa, que passei esse tempo todo visualizando-o…negro.

Racismo é isso. É isso milhões de vezes, todos os dias, das mais repetidas maneiras, até que se transforma em um sistema de motor contínuo.

Por que os personagens de anime são sempre brancos?

Uma pergunta que já vi muita gente se fazer: por que todo mundo tem cara de ocidental (leia-se, de branco) nos desenhos animados japoneses?

A pergunta é interessantíssima. Você já se perguntou isso? Eu já.

Como sempre, a pergunta revela mais sobre nós mesmos do que a resposta revela sobre os japoneses.

A resposta é simples: para os japoneses, os personagens de anime SÃO japoneses. NÓS é que os vemos como ocidentais.

Um homem normal.

Um homem normal.

Observe o boneco palito acima. Quem é essa pessoa?

Você provavelmente pensou que era um homem branco. Afinal, esse é o ser humano normativoem nossa cultura.

Para que o boneco palito representasse outro tipo de pessoa (esse outro que só pode existir em oposição a um normal normativo), características adicionais teriam que ser mostradas: asiático, olho puxado; mulher, saia, velho, bengala; negro, um afro; índio, cocar, etc.

Na falta desses marcadores de alteridade, ou seja, de diferença, o boneco palito é naturalmente, automaticamente percebido como representando o ser humano normativo.

Assim como, ao ler um livro, achamos que todos os personagens são brancos, a não ser que sejam explicitamente descritos como não-brancos. Via de regra, o personagem só vai não ser branco se houver uma razão específica no enredo para ele não ser branco. Ou se, como no exemplo que dei acima, ele desempenhe uma função tipicamente subalterna.

(Essas observações sobre bonecos-palito, anime e Marge Simpson foram em larga medida parafraseadas do excelente artigo de Julian Abagond, “Why do the Japanese draw themselves as white?” )

Qual é a cor da Marge Simpson?

Observe a Marge Simpson. Ela é branca?

Concentre-me, leitor. Estamos aqui pra falar de racismo.

Concentre-me, leitor. Estamos aqui pra falar de racismo.

Se você é como eu, a questão com certeza nunca lhe passou pela cabeça, mas a resposta é óbvia:

“Claro, ué! O que mais ela seria?”

Só que a pele dela é amarela e seu cabelo é um afro azul. Você conhece alguma pessoa branca assim? NENHUMA das características físicas da Marge Simpson remete a uma pessoa branca.

Então, por que sempre foi óbvio e auto-evidente, tanto pra você quanto pra mim, que ela era branca?

É simples: a normatividade se define pela ausência.

Portanto, na ausência de características físicas que remetam a outras raças (nem mesmo o afro azul é suficiente pra isso), a Marge por default é enquadrada na norma, ou seja, é vista como branca.

Esse processo de enquadramento normativo é tão forte que, mesmo ela tendo um afro, mesmo ela não tendo nenhuma característica física intrinsecamente “branca”, se eu te dissesse que ela é negra, isso iria te soar imediatamente ridículo, nonsense, talvez até engraçado:

“Claro que a Marge Simpson não é negra, Alex! Não PODE ser! Não faria nenhum sentido!”

Pós-chapinha.

Pós-chapinha.

Um breve aparte tristemente necessário

Escrevo e ensino sobre raça e literatura há muitos anos. Tenho experiência: sei que, nesse exato momento, muitos leitores estão começando a se sentir atacados e defensivos. Entenderam que considerar a Marge Simpson branca é um tipo de racismo e, como sempre pensaram nela assim, estão achando que eu os chamei de racistas. Em suas mentes, já estão se armando contra o texto e justificando suas posições.

Resista a esses pensamentos, amigo leitor. Nada pode ser mais narcisista e egocêntrico do que achar que tudo é sempre com você. Eu sei que você não é assim: nem racista, nem narciso. Então, seja forte. Eu não estou te acusando de nada. Eu também sempre vi os Simpsons como brancos.Eu, você e todo mundo.

Ou pode ser que você tenha entendido meus argumentos como algum tipo de teoria da conspiração. Que estou acusando o establishment, as elites, a mídia, a equipe criadora dos Simpsons, etc etc, de serem racistas ou, pior ainda, culpados pelo racismo no mundo.

Outra vez, resista a esses pensamentos, amigo leitor. Isso é apenas seu cérebro racional buscando culpados para tudo. Mas não existem culpados. Não existe ninguém, nenhuma pessoa, nenhum grupo, que a gente possa caçar, capturar, converter, matar, e então resolver o problema.

O mundo não é assim porque alguém decidiu que seria. O mundo é assim porque ele foi se criando assim através da interação de bilhões de pessoas ao longo de incontáveis séculos.

A questão não é individual, não tem nada a ver nem comigo nem com você enquanto pessoas.

A questão é: quais são as forças culturais que nos fazem, eu e você, vermos os Simpsons assim?

O boneco-palito é o que colocamos nele

No Brasil e nos EUA, duas sociedades escravistas colonizadas por brancos europeus e sustentadas pelo trabalho de negros escravos, o branco é sempre o normativo. Se não houver uma clara marcação, vamos sempre presumir brancura. Em tudo.

No Japão, a norma é totalmente diferente, mas o raciocínio é o mesmo: na ausência de uma marcação clara do outro, a norma é sempre presumida.

Então, nós, ocidentais, não detectamos nenhuma marcação específica de alteridade nos personagens de anime (as mesmas marcações que também não detectamos na Marge Simpson), e prontamente concluímos que são tão brancos quanto ela – ou seja, nós os enquadramos na NOSSA norma, a brancura. E depois, inocentemente, ainda nos perguntamos:

“Pôxa, por que será que os japoneses desenham seus personagens sempre brancos, hein?”

Só que os japoneses olham para os MESMOS personagens e, na ausência de marcação de alteridade, os veem como a SUA norma, ou seja, como asiáticos.

(Aí você se pergunta: como então os japoneses representam brancos nos desenhos de anime? Quando querem que um personagem seja visto como branco, ele via de regra tem os cabelos loiros, olhos claros e, principalmente, narizes longos, características tradicionalmente consideradas não-asiáticas.)

É como se os personagens de anime fossem todos bonecos-palito. Nós olhamos pra eles e pensamos que são brancos. Os japoneses olham pra eles e pensam que são asiáticos.

O boneco-palito, sem marcadores, é o que a gente quer que ele seja. Ele é a puta do nosso olhar.

(Sobre bonecos-palito, confira esse artigo incrível sobre como homens e mulheres são representados nas portas dos banheiros: “Go where? Sex, gender and toilets”)

A brancura presumida

Imagine que uma amiga vive querendo te apresentar a uma colega dela que tem tudo a ver com você. Descreve a amiga em detalhes: estudou na PUC, tem mestrado em letras, também adora Star Trek, vôlei e comida tailandesa, é alta como você gosta, olhos cor-de-mel, tudo de bom.

Aí, você encontra a menina e leva um susto tremendo ao ver que ela é… negra!

Pode confessar, amigo leitor: você também não ficaria surpreso? Eu ficaria. E não é porque somos racistas, mas sim porque, em nossa sociedade, a brancura é sempre presumida.

Se nossa amiga não descrever a colega com termos como “mulata bom-bom”“negra lindíssima”,“japinha foférrima”, etc, você pode ir ao encontro tranquilo na certeza de que a moça é branca.

Nesse ponto, algum leitor pode levantar a seguinte objeção:

“É, mas aí você já está presumindo que eu e a amiga somos brancos classe média, né? Só que nem todo mundo é assim.”

Verdade. Eu não acho que todo mundo pertence a esse grupo, mas com certeza é para esse grupo que estou falando. A lição do texto, sobre normalidade e privilégio, quem precisa aprender são os brancos classe média de Perdizes e Ipanema.

Mas posso garantir o seguinte: a sociedade é composta de vários subgrupos onde o conceito especifico de normatividade pode até ser diferente, mas o processo, em si, nunca muda.

Se cinco negros da periferia estiverem conversando sobre uma menina e se não for mencionado nenhum marcador de diferença, é presumível que ela também seja uma negra da periferia. Se fosse branquinha dos Jardins, esse detalhe seria ressaltado e enfatizado.

A turma toda – ou melhor, só os personagens importantes.

A turma toda – ou melhor, só os personagens importantes.

A cor da Turma da Mônica

Pense na Turma da Mônica. De que cor eles são?

Fácil, né: são “normais”, da cor “normal”.

E como sabemos disso?

Simples: se fossem pretos, seriam desenhados como o Jeremias; asiáticos, como o Hiro, indígenas, Papa-Capim.

O Jeremias é o peixe fora d'água ali à esquerda. Sabe qual é, o único pintado com uma cor de pele diferente.

O Jeremias é o peixe fora d’água ali à esquerda. Sabe qual é, o único pintado com uma cor de pele diferente.

Além do negro, do índio, e do nissei, também temos um mudo, uma cega, um cadeirante, até um morto. Todos com sua diferença bem marcada e muito explicitada.

Mas, se existe um personagem negro, um índio, um nissei, etc, cadê o personagem branco? Cadê o personagem que teria sua brancura tão acentuada e explicitada quando a “indianice” do Papa-Capim ou a negritude do Jeremias?

Não tem. Claro que não. Porque a brancura, por ser a norma, não é nunca um grupo de características determinantes, mas sim uma conspícua AUSÊNCIA dessas características.

Branco é o normal. Brancos são todos aqueles não-alterizados por nenhum marcador de diferença. Brancos são todos aqueles que, por não serem “o outro”, são, não por coincidência, os personagens principais: Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento, Tina, Rolo e vários coadjuvantes, do Franjinha ao Xaveco.

Ou seja, apesar de existir um grande elenco de minorias, o seu status de coadjuvantes eternos só faz acentuar a normatividade do núcleo duro.

Essa ilustração, única que encontrei com todas as minorias, não é de nenhuma revista de banca, mas de um número especial encomendado pela Unicef.

Essa ilustração, única que encontrei com todas as minorias, não é de nenhuma revista de banca, mas de um número especial encomendado pela Unicef.

(Calma, amigo leitor. Sei que estou mexendo com os ícones da sua infância. Mas, assim como não acusei nem você e nem a equipe criadora dos Simpsons de racismo, também não estou acusando o pobre Maurício de Souza. A ideia aqui é somente tentar descobrir de onde vem e como é construída nossa visão de mundo. E, querendo ou não, a visão de mundo de quase todo brasileiro com menos de cinquenta anos foi construída, em parte, pela Turma da Mônica.)

Então, longe de acusar Maurício de Souza de racismo, dá pra ver um esforço consciente e consistente, ao longo das últimas décadas, de representar vários tipos diferentes de brasileiro. Hoje, praticamente qualquer criança do Brasil tem o “seu” personagem da Turma da Mônica com o qual se identificar.

Mas é essa própria diferenciação entre os personagens-outros e os personagens-normativos que enfatiza e reforça ainda mais a ideia de que HÁ uma norma. Sim, existem entre nós negros e índios, nisseis e cadeirantes, olha eles aqui ó!, mas tirando essas exceções, o normal é ser branco.

Cebolinha é salmão e Bart Simpson, amarelo, mas seria impossível para nós não vê-los sempre como brancos.

Continuamos a conversa em duas semanas, agora abordando de frente esse problemático conceito da “normalidade”. Afinal, o que é o “normal”? Isso sempre existiu? Quem criou? Pode ser desinventado? Enquanto isso, você pode conferir outros textos que escrevi sobre racismo.

Alex Castro

Alex Castro é. Por enquanto. Em breve, nem isso. // Se gostou desse texto, dá uma olhada nos meus livros.
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O privilégio de não ser negão (Racismo e normalidade – Parte 1)

por 

originalmente publicado em: http://papodehomem.com.br/racismo-e-normalidade-1/

É impossível falar de racismo sem falar de normalidade. O racismo nada mais é do que uma implementação radical da normalidade. Só existe um “outro” que pode ser excluído porque existe uma normalidade intolerante que o define fora dela. Só existe racismo contra o negro porque ser branco é “normal”.

Vamos ver como isso funciona na prática.

De uma gota, extrapolamos o mar

De repente, aparece o Simonal e ela diz, empolgada:

– Meus deus, que negão lindo.

Daqui a pouco, de novo:

– Olha o charme desse negão, ele é o dono da plateia!

Eu não digo nada, mas abro os ouvidos. Ela também é fã do Roberto:

– Caramba, Alex, olha como esse homem era lindo. O que o tempo faz com as pessoas, meu deus?

Era batata. Quase todas suas referências (sempre elogiosas) ao Simonal destacavam sua raça – não chamando-o de “negro” (claro que não, aí pega mal) mas de “negão”, uma palavra que, dependendo do tom, virou apelido carinhoso.

Já em suas referências elogiosas ao Roberto, ele nunca foi chamado de “branco“, “brancão” ou mesmo “capixaba” ou “perneta“. Não: Roberto era sempre “ele”, “esse homem”, “esse cara”, “o rei”.

Assim como podemos extrapolar a existência do mar a partir de uma gota d’água, também podemos deduzir toda a desigualdade racial do Brasil só de ouvir atentamente uma típica brasileira falando sozinha durante um documentário.


Link YouTube | Trailer do documentário sobre o Simonal. Era ou não era um negão pintoso?

“Sou racista por me referir ao Simonal como negão?”

Se fosse interpelada, minha amiga ficaria imediatamente na defensiva:

– Pô, Alex. Sou fã do Simonal. Fomos ver o documentário da vida dele. Eu disse que o cara é lindo, fodão, dono da plateia, etc. E você vem me chamar de racista?

E eu responderia:

– Claro que não. Não chamo ninguém de racista. Isso não faz nenhuma diferença. Eu também falo assim. Quase todo mundo fala assim. A questão é que tipo de sociedade faz com que seus membros falem assim.

– Mas qual é o problema? Não posso chamar o Simonal de negão? Gente!, ele não era negão?

Então, vamos lá. Eu explico.

Pelo privilégio de não ser um “negão bonito”

Claro que ela pode chamar o Simonal do que você quiser. Ele não só morreu como já chamaram de coisa pior.

Mas é simples: enquanto nós, os brasileiros de todas as cores, na nossa fala cotidiana, sentirmos a necessidade de marcar, enfatizar, mencionar a raça do indivíduo negro, ao mesmo tempo em que NÃO sentimos a necessidade de marcar, enfatizar, mencionar a raça do indivíduo branco, então o branco continuará a ser sempre a norma, o normativo, o normal, a ideia paradigmática do brasileiro, enquanto o negro continuará a ser sempre um excluído, uma exceção, um outro.

Enquanto existir “o brasileiro” (que você fecha os olhos e visualiza branco) e “o brasileiro negro”, que é outra coisa, que é um qualificador possível de brasileiro, que é um tipo de brasileiro entre tantos outros brasileiros, continuaremos a ser sempre sempre uma nação racista.

Por que ela não disse “meu deus, que homem lindo!” ou “olha o charme desse cara” ou mil outras combinações? Por que, quando ela pensa no Simonal, “negro” ou “negão” já se impõem imediatamente como categoria?

Não, eu não estou culpando ela de nada. Não, eu não estou patrulhando minha amiga. Não, eu não estou proibindo-a de chamar o Simonal de “negão”. Não, eu não acho que ela seja racista, escrota, má pessoa.

Eu acho, isso sim, que ela, e eu, e você, crescemos em uma sociedade profundamente racista e desigual; que essa sociedade nos infectou desde cedo com seus valores e prioridades; e que essa sociedade existe através de nós e fala através de nós, uma sociedade que usa nossos corpos e mentes para se perpetuar através do tempo, e que somos seus cúmplices e possibilitadores mesmo quando discordamos dela.

Pequena história das relações raciais nos EUA, e no Brasil também.

Pequena história das relações raciais nos EUA, e no Brasil também.

(Eu sou ateu e falo “cruz credo” e “virgem maria” porque sou cidadão de um país profundamente cristão cujo único idioma é uma das línguas mais chovinisticamente cristãs do mundo. Quando a Igreja tentou impedir que os fiéis usassem os nomes de dias da semana baseados nos deuses pagãos e inventou do zero a sua própria nomenclatura, a língua portuguesa foi a única onde ela pegou. Todos os outros idiomas cristãos europeus ainda usam o sistema antigo, onde segunda é o dia da lua, logo Monday, Lunedi, Lunes, Lundi, etc. Ou seja, nossa língua é uma das mais carolas do mundo e até os seus falantes mais ateus não conseguem evitar completamente ser cúmplices disso.)

Então, o assunto aqui não é linchar minha amiga por ela “ser racista” ou impedi-la de falar do jeito como bem entende, mas simplesmente entender: por que ela, e eu e você, falamos assim? De onde veio isso? O que isso significa?

O que podemos aprender sobre o Brasil a partir do fato de que grande parte de seus cidadãos fala assim sem nem se dar conta?

Nada é mais difícil do que percebermos nossos próprios privilégios. É natural nos sentirmos a regra, a norma, o normativo: o outro é que tem menos, é que É menos.

(Uma das grandes diferenças entre homem e mulher: se você pergunta a um homem quando foi a última vez que sentiu medo de morrer, vai ouvir alguma história sobre uma aventura ou um quase crime acontecida meses ou anos antes; se pergunta para uma mulher, ela vai contar algo que aconteceu hoje de manhã ou ontem à noite. Para os homens, andar pela vida sem medo de morrer ou de ser estuprado é uma coisa tão normal que nem nos damos conta. Mas, do ponto de vista de uma mulher, esse é justamente um dos maiores privilégios masculinos.)


Link YouTube | Qual é a boneca feia??

Então, está na hora de nos darmos conta que um dos grandes, talvez o maior privilégio do brasileiro branco é justamente não ter sua raça mencionada, marcada, enfatizada o tempo todo.

O “outro” é sempre definido a partir do grupo ao qual pertence: “o negão lindo, “o japa esperto”. Só o normativo pode se dar ao luxo de não pertencer a nenhum grupo, de ser impermeável a rótulos. Ele é o único que pode dizer, na cara dura:

“eu sou só eu, um ser humano.”

E muitas vezes acrescentar, sem nem se dar conta da hipocrisia:

“como todo mundo.”

Esse é o enorme privilégio de poder ser “bonito” e não “um negão bonito”.

* * *

Continuamos a conversa em duas semanas, abordando de frente esse problemático conceito da “normalidade”. E fica uma pergunta, pra quem nunca pensou nisso: por que quase todos os personagens de anime são ocidentais e não asiáticos? Aliás, de que cor são os Simpsons? Por falar nisso, de que cor é a Turma da Mônica? Enquanto isso, você pode conferir outros textos que escrevi sobre racismo.

Alex Castro

Alex Castro é. Por enquanto. Em breve, nem isso. // Se gostou desse texto, dá uma olhada nos meus livros.

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A travessia de uma psicóloga sem fronteiras que escolheu ver o lado B do mundo
Eliane Brum

No dia 16 de abril, a gaúcha Debora Noal botou nas costas uma mochila que nunca passa dos 10 quilos. Dentro dela, uma lanterna de cabeça, como as que os mineiros usam, adaptadores de todos os tipos para computador, um gel para lavar as mãos, lenços umedecidos para o banho, um kit de colher, garfo e faca, um canivete, duas camisetas da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), duas calças jeans, um lenço cor-de-rosa para usar na cabeça em regiões muçulmanas, uma jaqueta térmica, um par de havaianas e outro de tênis, um laptop e um dicionário de português/francês/inglês. Levou ainda uma velha boneca da Magali, personagem do criador Maurício de Sousa, que troca de cara (feliz, triste, zangada, etc), para ajudá-la no atendimento a crianças nos lugares mais remotos e perigosos do mundo. Aos 30 anos, a psicóloga Debora partiu para sua décima missão na MSF. Depois de uma preparação de alguns dias em Genebra, hoje ela está no Quirguistão.
Em 2010 houve um conflito étnico entre uzbeques e quirguizes no país da Ásia Central, ex-integrante da antiga União Soviética. Muitos morreram e muitos foram presos. Debora passará de quatro a seis meses trabalhando nas prisões do “Quirgui”, como ela diz. Além de duas missões no Brasil, desde 2008 ela atua em países que a maioria de nós não sabe pronunciar o nome nem onde fica – ou apenas conhece pelo noticiário internacional. Começou pelo Haiti (três vezes, incluindo a República Dominicana), Guiné-Conacri, República Democrática do Congo (duas vezes), e recém voltara de um campo de refugiados do conflito na Líbia quando foi recrutada para o Quirguistão. Sem saber que seria despachada para um país frio, tinha acabado de raspar a cabeça para mudar de estilo.

Dias antes de sua partida, entrevistei Debora por três horas em seu pequeno apartamento em Aracaju, capital de Sergipe, cidade tranquila e praiana que ela escolheu para voltar depois de cada partida. É um apartamento despojado e muito colorido, povoado por lagartixas e girafas artesanais que ganha de presente. Perguntei a ela a razão de tantas cores. E Debora me explicou que as cores são a forma encontrada por ela para representar a variedade de cheiros que seu contato com um mundo diverso de humanidades lhe proporciona – um universo olfativo impossível de definir em palavras. Era desse mundo muito mais rico – que Debora alcança e nós não – que eu queria saber.

Nascida e criada na gaúcha Santa Maria, Debora cursou Psicologia em Santa Cruz do Sul porque buscava uma faculdade comunitária. Depois, trabalhou no Fórum Social Mundial de 2005 e, quando o evento terminou, tentou pegar uma carona para Manaus. Não conseguiu. Acabou em Recife, onde instalou CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) em duas cidades do interior pernambucano. Saiu de lá para fazer residência em Saúde da Família em Sobral, no Ceará, mas concluiu que, sem praia, não suportaria o calor de mais de 40 graus. Acabou em Aracaju, onde fez Gestão de Saúde Pública e Saúde Coletiva. Tornou-se funcionária da secretaria estadual de Saúde e percorreu 28 municípios do Baixo São Francisco para compreender as necessidades da população e organizar o atendimento. Até hoje não tem plano de saúde privado e só reserva elogios para a cobertura do SUS na capital sergipana.

Neste ponto da história, a MSF entrou na vida de Debora e o mundo virou – o que era longe ficou perto. Como em filmes de suspense, ela recebe ligações do tipo: “Debora, temos uma missão para você”. Mas, ao contrário do cinema, em que são espiões equipados com armas de última geração que recebem esse tipo de chamada, Debora parte em missões humanitárias. E arrisca a própria vida armada apenas de conhecimento e da ideia de que a humanidade inteira é sua família.

Debora nos apresenta uma realidade que, não por acaso, pouco chega até nós. Depois de ler sua entrevista, pode parecer difícil acreditar. Mas raras vezes conheci alguém tão leve, transparente e feliz. Os olhos de Debora brilham enquanto conta sua experiência. Nos momentos de maior brutalidade se turvam – e depois voltam a brilhar. Ela não perde nenhuma oportunidade de rir e sua voz é sempre suave. E, quando abraça as pessoas, abraça. Dá vontade de se tornar amiga dela pelo resto da vida. Deve ser por isso que a legião de amigos de Aracaju a espera no aeroporto com champanha e balões quando ela chega estropiada de mais uma missão.

É isso. Debora é com certeza uma das pessoas mais vivas que conheci. E esta é uma entrevista ao mesmo tempo chocante e inspiradora. Dois adjetivos que só alguém com as qualidades de Debora, capaz de arrancar esperança nos cenários mais brutais, poderia acrescentar a um mesmo substantivo. Por isso, foi também uma entrevista muito difícil de cortar. Depois de bastante sofrimento, consegui deixá-la em um terço da original. E guardar o restante para outro momento. Vale cada linha. E meu sonho é que todos possam lê-la e ser movidos pela vontade de compartilhá-la com os amigos e também com desconhecidos.

A foto abaixo foi escolhida por Debora e feita em Porto Príncipe, no Haiti, em 2009. A criança em seu colo se chama Estelle. Sua família queimou suas duas mãos e seus dois pés numa chapa quente, causando queimaduras tão graves que a menina correu o risco de sofrer a amputação dos membros. Durante todo o tratamento, Estelle só aceitou o toque de uma pessoa: Debora.

O que Debora diz é vital. Espero que, ao ler a entrevista a seguir, cada leitor possa alcançar Debora e incluir uma porção maior de mundo dentro de si.

Arquivo Pessoal

Como você foi parar nos Médicos Sem Fronteiras?
Debora Noal
 – Vige! É uma longa história.

A gente tem tempo…
Debora –
 Um dia um amigo me disse: “Ó, Débora, acho que você tem todo o perfil para trabalhar nos Médicos Sem Fronteiras. Você nunca pensou nisso?” Eu nunca tinha escutado sobre os Médicos Sem Fronteiras na minha vida. Não sabia nem o que era isso. Acho que era janeiro ou fevereiro de 2008. Aí eu falei… “Nossa, Médico Sem Fronteiras? Não sei…”. Ele disse: “Dá uma olhada no site…”. Mas a minha vida era bem conturbada nessa época e eu nem olhei.

Como era sua vida nesse momento?
Debora –
 Eu tinha um consultório com dez pacientes, que atendia à noite, fazia mestrado em Saúde Coletiva, tinha um emprego no Estado que eu adorava e morava numa cobertura de frente para o mar. Só eu e minha gata Filomena. Mas esse meu amigo ficou martelando. E eu acabei me inscrevendo. Dois meses depois eles abriram uma prova de seleção. Eu não sei se você já chegou a dar uma olhada no site, mas tem de fazer um monte de testes. Depois de você mandar seu currículo, você tem de ir fazer os testes e as entrevistas pessoalmente. Tem teste prático, técnico, de equipe, de gestão, uma entrevista em português e depois uma entrevista na língua que você escolher, que pode ser inglês ou francês.

E que língua você escolheu?
Debora –
 O francês. Eu passei em tudo, mas eles me falaram: “Olha, você tem de melhorar o seu francês. Tem que ter francês fluente pra ir”.

Como era o seu francês nesse tempo?
Debora –
 Era uma porcaria… muito ruim. Eu tinha um namorado que era francês, um parisiense. E a gente conversava muito. Mas era meu único contato com a língua. Se eu namorasse um inglês provavelmente teria escolhido o inglês e teria sido mais tranquilo. Mas eu voltei e estudei muito francês, sozinha. Eu fazia supervisão nos 28 municípios do Estado e ia escutando um CD com as aulas em francês até chegar lá. Chegava lá, trabalhava e voltava escutando. Um dia eu estava indo para uma reunião de trabalho em que eu seria promovida e ganharia um salário maior. Eu estava a caminho quando me ligaram dos Médicos Sem Fronteiras: “Olha, a gente está te ligando porque encontramos a sua missão”. Nossa… e qual é a minha missão?

É forte essa história de: “Encontramos a sua missão….”
Debora –
 Então, como assim, encontraram a minha missão? “É, porque teve um furacão em Gonaives, no Haiti, e há muitas pessoas feridas. A gente gostaria de saber se você está disponível para partir nesta semana”. Era setembro de 2008. E eu… “Como assim? Eu fiz um teste meses antes e vocês estão me ligando hoje para saber se eu posso partir nesta semana…” Eu com toda a minha vida estruturada, tudo. Aí eu voltei para casa e falei: “Filó, mudança de planos. Vamos mudar de casa!”. E aí, foi.

Mas o que fez você aceitar esse, sei lá, “chamado”? Largar tudo e se jogar?
Debora – 
No final daquela conversa com aquele amigo que me falou dos Médicos Sem fronteiras, ele disse: “Sabe, Debora, eu acho que há coisas que a gente precisa pensar… porque provavelmente alguém, em algum lugar do mundo, está esperando por você”. Eu fiquei pensando… É, teoricamente isso não faz nenhum sentido. Alguém, em algum lugar do mundo, está esperando por mim? Ok, né? Mas essa frase ficou, ficou bem forte. E aí, quando a recrutadora me ligou e falou – “Olha, encontramos a sua missão” – eu pensei: o que é um mestrado e um emprego fixo e uma cobertura de frente para o mar e uma gata, o que é? Não é nada…

Como assim “não é nada”? Para a maioria das pessoas é tudo…
Debora –
 Dinheiro, estrutura material, nunca foi o meu forte. Não é uma coisa que me toca muito. Acho dinheiro ok, é legal. É bem interessante, você consegue fazer um monte de coisas. Mas sem ele você também consegue fazer um monte de coisas. E acho que, se você se apega a isso, a alguma coisa que é material, isso quer dizer que você está plantando sua raiz por uma estrutura material. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser.

E aí, você largou tudo e se foi para o Haiti?
Debora 
– A gata ficou com a vizinha, uma amiga minha do Sul. Fui lá, deixei a Filomena com todas as bagagens na casa dela. Pedi demissão, acabei o mestrado, tudo para passar um mês. Porque era uma missão de urgência. Entreguei o apartamento, deixei os móveis no meio do corredor porque não tinha condições de distribuir tudo rápido. Só que essa missão se prolongou para quatro meses e meio…

Foi fácil esse desapego pelas suas coisas?
Debora –
 O que não é possível carregar comigo é porque não é meu. As pessoas diziam… “Mas você vai deixar tudo? Máquina de lavar no meio do corredor, televisão… e se roubarem?” Se roubarem, roubaram… O que eu vou fazer? Não posso passar minha vida inteira segurando uma televisão na mão… Lembro que eu ia recebendo emails dos vizinhos ao longo dos meses. “Posso ficar com a sua máquina de lavar roupa?” Pode. “O seu quadro está no meio do corredor… posso botar na minha casa?” Pode. E aí, quando eu voltei, foi bem legal, porque fui indo em cada vizinho, tocando na porta… Você tem alguma coisa minha? “Tenho, seu guarda-roupa está aqui…” Foi bem interessante.

Me fala mais desse perfil dos Médicos Sem Fronteiras que é tão você…
Debora –
 Eles buscam alguém com muito interesse de prover cuidado para o outro. A gente brinca sempre que na MSF o primeiro objetivo principal é o beneficiário, o segundo objetivo principal é o beneficiário, o terceiro é o beneficiário, o quarto é o beneficiário, o quinto, talvez, o staff nacional, o sexto, o expatriado, que são as pessoas como eu, que saem do seu país para prover o cuidado de alguém. Isso, dentro de uma estrutura de saúde pública, não é muito comum. Eu trabalhava muito no Estado, tipo manhã, tarde e noite. Todo mundo me dizia: “Por que você trabalha tanto? Não tem necessidade…” Como não tem necessidade? Tem muita coisa para organizar. A gente discutia muito em equipe. E as críticas eram: “Super Debora”. Mas isso não era no sentido positivo, mas no sentido negativo. Tipo: “Você está aqui nos matando… dá uma folga! Deixa a gente respirar”. Tanto que, quando eu pedi demissão, todo mundo falou: “Ah, agora ela encontrou o lugar da vida dela! Um lugar que precisa muito, e que tem muita gente com o mesmo perfil, do tipo ‘não sossega’”. Acho que vem muito ligado a isso, de ter esse desejo de prover um cuidado para o outro. Eu lembro que eles diziam: “Mas não é ninguém da sua família…”. Sim… mas qual é o seu conceito de família?

Qual é o seu?
Debora –
 Família, para mim, pode ser o cara que está do outro lado da rua. Ok, ele não tem o mesmo sangue, eu nunca vi ele na vida, mas a minha família eu também vejo muito pouco. Então, se o parâmetro é esse, pessoas que você vê com muita frequência, bom, então o meu vizinho é a minha família. Ou a pessoa com quem eu trabalho, ou o gestor que eu estou vendo todo dia na coordenação… Então esse cara é a minha família, se esse é o conceito. Sempre tive um prazer bem grande de viver em família, mas tomando em consideração esse conceito de família bem ampliado. Pode ser qualquer pessoa. Não tenho essa pretensão do mesmo sangue ou do mesmo nome ou de uma história pregressa. E a maioria das pessoas nem conhece a história pregressa da sua família, né? O cara que está lá no Congo, no meio de um conflito armado, também é da minha família. É ser humano? Está valendo.

Como é uma missão?
Debora –
 Em missão todo dia é segunda-feira de manhã. Não existe sábado, não existe domingo. Você acorda e é segunda-feira, no outro dia é segunda-feira de novo, e no outro ainda é segunda-feira, e todo mundo tem muito… muito brilho no olho. Sabe? É segunda-feira, mas olha só, tem de fazer isso, isso e isso. A gente briga muito, discute muito, mas todo mundo tem um foco. Ninguém duvida de que o foco principal é o beneficiário, que tem gente que precisa de ajuda, que precisa ser cuidada.

Todo mundo sabe que faz algo que dá sentido à sua vida…
Debora –
 É assim.. você está cansada, você está aniquilada, mas a alma está salva, você está se sentindo bem com o que está fazendo. Não tem nenhuma conotação religiosa, a gente até brinca que somos os “ateus sem fronteiras”. A gente acredita no cuidado com o ser humano. Não dá para esperar uma entidade – tomara que ela exista, e tomara que ela um dia comece a se organizar de uma outra forma, porque o mundo é bem cruel. Mas a gente precisa cuidar agora.

Mas nessa primeira missão, especialmente, deve ter dado um frio na barriga, não? Porque as coisas na vida são um pouco duras também…
Debora –
 Um pouco, não. São muito duras. Mas embora eu não seja nenhuma Pollyanna, nunca acho que as coisas vão dar errado. Eu sempre tenho certeza que vai dar certo. Mesmo quando der errado, é porque está dando certo. O meu único medo era realmente com a língua. Eu não tinha medo do que ia encontrar lá. Eu não tinha medo de um novo furacão, como é sempre uma possibilidade em um desastre natural. Isso não me inquietava. A minha inquietação era com o francês – como é que vou me comunicar? Por que eu sou psicóloga, né? Eu trabalho com a fala. Então o significado da palavra é muito importante. E o meu receio era: será que eu vou conseguir compreender o significado da palavra do outro? Depois da minha primeira missão compreendi que o significado da palavra, numa catástrofe, é muito pequeno. É muito o que você sente quando está junto com o outro, e o que ele consegue te passar de sofrimento. E quais são as consignas que ele te passa de sofrimento.

E o que são consignas?
Debora –
 Consignas são os códigos que ele está te passando de sofrimento. E que, normalmente, não são transmitidos pela fala. Porque são comunidades e sociedades muito pouco trabalhadas no sentido material, tendo como parâmetro uma estrutura social ocidental como a nossa, com educação, escola… São pessoas que normalmente falam muito pouco, mas que corporalmente são muito expressivas. Só que cada comunidade se expressa de uma forma. Para você conseguir compreender os códigos de sofrimento que o outro está te passando, você precisa de tempo. E é muito interessante. Eu estou indo agora para a minha décima missão. E fui ficando muito rápida para perceber as consignas do outro – a forma como cada um se expressa, nem tanto com a palavra, mas a forma corporal também. E é interessante porque o trabalho é muito diferente do que é numa urgência ou do que é num consultório, por exemplo. O trabalho é muito diferente porque você não tem o tempo que você tem no consultório, você não tem a estabilidade que você tem na urgência.

Como assim?
Debora –
 Num trabalho de urgência aqui no Brasil, por exemplo, a urgência é do outro, não é a sua urgência. Mas, quando você está numa catástrofe, a urgência também é sua, porque você também está sob o efeito da catástrofe natural. Por exemplo, no terremoto eu estava atendendo as pessoas e o chão estava tremendo. Então eu também estava dentro de uma estrutura de perigo, que é a grande diferença da urgência que a gente vive aqui. Quando eu estava dentro de uma ambulância do SAMU ou quando eu estava dentro de uma Unidade de Pronto Atendimento, eu sabia que a urgência era do outro. Ele estava vindo de um contexto de desastre, mas eu não participava daquele desastre, eu participava de um outro momento, que era uma possibilidade de estruturar e estabilizar psicologicamente uma pessoa. Lá, numa catástrofe, não. Você está junto, você vivencia a catástrofe junto com o outro. É uma forma de dizer para o outro: ok, você não está sozinho, estamos juntos nessa. Isso é bem maluco.

E como você faz?
Debora –
 De várias formas. Às vezes, só pelo fato de você estar dentro do mesmo espaço físico que ele, você está mostrando que ok, é perigoso, mas se eu estou aqui e estou te dizendo que funciona, você pode ficar. Como, por exemplo, dentro das unidades que a gente montou no terremoto no Haiti. Depois de 24 horas tudo ainda tremia: as unidades de saúde tremiam, o chão tremia muito, e eu lembro que cada vez que começava um novo tremor de terra as pessoas tinham o ímpeto de sair correndo. Só o fato de você estar ainda dentro da estrutura e de dizer para a pessoa – “Olha, o engenheiro já disse que essa unidade não vai cair se tiver um outro terremoto até 7.0, então a gente pode ficar, e vamos ficar juntos” – já muda. E a outra maneira é investigar coisas bem práticas: que tipo de coisa você pode ir fazendo para se estabilizar. Quase sempre o pedido é o mesmo: “Me ajuda a esquecer”.

E como você responde a um pedido como esse?
Debora –
 A minha resposta é sempre a mesma: “Infelizmente eu não posso te ajudar a esquecer. Lembrar, você vai sempre. O que eu posso fazer é te ajudar a lembrar dos eventos com menos sofrimento”.

E como se faz isso?
Debora –
 Se faz com um pouco de técnica, um pouco de tempo e muito do desejo do outro de querer elaborar o evento que ele vivenciou. E que não é fácil. Você perde nove pessoas de sua família ao longo do tempo ou você perde tudo – sua casa, seu trabalho, tudo aquilo que você lutou muito para construir e que para a maioria dos seres humanos são coisas muito importantes. Então você chega quando nem elas mesmas gostariam de estar naquele lugar. Essa é a grande especialidade, acho, da organização – chegar quando nem mesmo as pessoas que vivem lá queriam estar naquele lugar. E é nesse momento que você chega. E às vezes você faz um atendimento e fica guardado na cabeça das pessoas para o resto da vida. Você pode mudar completamente o destino de uma pessoa com um simples atendimento.

Me dá um exemplo concreto…
Debora –
 Vou dar o exemplo da dona Marie, do Congo. O LRA (Lord’s Resistance Army – Exército de Resistência do Senhor), que é um grupo de rebeldes do governo ugandês que promove vários ataques na fronteira entre o Burundi e o Congo, ataca pessoas como a dona Marie. Essas pessoas atacadas não falam nem a mesma língua, não sabem por que o exército e os rebeldes ugandenses atacam suas comunidades. Lá não existe televisão, não existe internet, não existe rádio, então elas não têm noção de que existe um conflito armado, muito menos que elas estão sendo alvos de um conflito armado. A cidade, Niangara, é considerada o coração da África. Tem inclusive uma pilastra que diz: “Você chegou ao coração da África”.

Deve ter sido muito difícil chegar até lá no meio de um conflito…
Debora –
 Muito difícil. A gente desceu em Isiro com um avião pequeno e depois fez oito, nove horas naquelas camionetes tracionadas para chegar a esse lugar. Tudo poderia acontecer no meio do caminho, tudo. Nós éramos a primeira equipe a tentar chegar lá para ver qual era a real situação. A única coisa que a gente sabia é que as comunidades estavam sendo atacadas e que eram ataques muito cruéis. Os rebeldes chegavam nessas comunidades próximas a Niangara, onde as pessoas moram em casas de barro com palha. Os rebeldes jogam fogo nas casas durante a noite e, quando as pessoas estão saindo, eles atiram com aquelasKalashnikov, que são metralhadoras que não travam. Então eles podem matar muitas pessoas ao mesmo tempo. Alguns morrem queimados, outros morrem de tiros, outros morrem degolados. Outros ainda morrem de hemorragia, porque eles cortam as cartilagens com faca: as orelhas, a ponta do nariz, os lábios. E muitas meninas e mulheres morrem de estupro, de hemorragia após o estupro. Porque os estupros são coletivos. De 30 a 40 homens estupram uma única mulher. Eles fazem os maridos e os filhos segurarem a mulher enquanto os homens estupram em massa. São requintes de crueldade impressionantes.

E foi isso o que aconteceu com Marie?
Debora –
 Essa mamãe Marie me tocou muito – eu digo mamãe porque lá todo mundo se chama de mamãe, todo mundo que é mulher se chama mamãe alguma coisa, e homem se chama papai alguma coisa. É um título de respeito. Fazia 24 horas que a gente tinha chegado quando mamãe Marie apareceu. E eu lembro que ela chegou desesperada. Uma mulher muito magra, alta, com a roupa completamente rasgada – porque eles estão sempre com um pedaço de pano amarrado nas pernas para fazer uma saia, um outro amarrado em cima para fazer uma blusa, e normalmente um terceiro para amarrar um bebê. Todos da mesma cor. E ela chegou muito rasgada. E ela disse: “Eu não tenho nenhum motivo para viver, mas me disseram que aqui tinha uma branca que ajudava as pessoas”. Eu falei: “Bom, vamos ver, né? De que ajuda você precisa?”. Ela morava com seis filhos e o marido. Quando um dos filhos estava saindo do le marché (pequenas feiras no meio da rua), alguém gritou: “Corre, porque acabaram de matar teu marido na estrada”. E ela disse: “Como assim, mataram meu marido?”. E disseram: “Os LRA encontraram teu marido na estrada e mataram. Corre do povoado porque eles vão matar todo mundo”. Ela falou: “Mas eu tenho seis filhos dentro de casa…” E aí ela voltou para a sua comunidade, com seu bebezinho amarrado na cintura, e pegou os filhos. E saiu correndo para o meio da floresta, que é mata fechada. Só que no meio do caminho ela percebeu que estava com cinco crianças. Faltava a de dois aninhos. Ela deixou os filhos na floresta e correu de volta para casa com seu bebê amarradinho. E viu a pequenininha dentro de casa, queimando, junto com todas as coisas. Desesperada ela correu para buscar os outros que estavam no meio da floresta e caminhou durante muitos dias dentro da mata fechada com as cinco crianças, sabendo que o marido já tinha morrido, para conseguir ajuda. E aí conseguiu chegar a outro povoado, que era onde morava a mãe dela. E, alguns dias depois, o LRA alcançou essa comunidade e ela sofreu um estupro coletivo. Dezenas de homens a estupraram. E depois mataram dois dos filhos dela. Mamãe Marie seguiu fugindo, mas a cada ataque foi diminuindo o número de filhos dela. Quando ela chegou a Niangara ela tinha apenas um bebê, que era o que estava amarrado na cintura. E ela disse: “Eu não tenho nenhuma razão para viver”.

O que aconteceu com os outros filhos dela?
Debora –
 Foram mortos e uma menina sequestrada. É muito comum sequestrarem meninos e meninas. As meninas são escravas sexuais. Durante todo o tempo em que estão sequestradas elas se deslocam na floresta junto com os guerrilheiros. E os meninos são sequestrados para carregar as armas e os roubos em grandes balaios sobre a cabeça. Os guerrilheiros saqueiam as comunidades, queimam as casas, atiram nas pessoas. Isto tudo é uma forma de demonstrar poder diante do governo congolês, que se posicionou contra essa força armada ugandesa. Porque até então os congoleses não tinham sido alvos dos guerrilheiros ugandenses. Mas a partir do momento em que o governo congolês se posicionou contra esse tipo de conflito, eles começaram a atacar as comunidades. Mas não existe informação. Então as pessoas são atacadas sem saber por quê. Logo que eu cheguei, eu não conseguia entender. Como assim? Foi atacada, mas por quê? Mamãe Marie dizia: “Não sei, não sei quem são essas pessoas, eu não sei por que fui atacada, não sei por que eles mataram meu marido, por que mataram meus filhos. Só sei que eu não tenho nenhuma razão para estar viva. Eu não tenho nada. Eu tenho um bebê. E vou cuidar como desse bebê se eu não tenho como trabalhar?”. É uma comunidade que vive de trocas. Não há dinheiro. Então você troca serviços para poder viver. Mas você vai trocar o que quando você não tem nada? Eles vivem de plantar coisas na floresta. Desmatam uma parte da floresta, plantam e aí aquilo ali serve de troca no mercado. Só que quando você não tem mais sua terra, você vai fazer o quê? E eu lembro que no dia em que a encontrei, pensei: como eu posso ajudar uma pessoa dessas? Ela perdeu tudo… E eu era a única psicóloga nesse lugar, a única. Não tinha nem mesmo um psicólogo nacional, ainda não tinha tradutor, eu tinha acabado de chegar à cidade e, se você me perguntar como fiz o atendimento, até hoje eu não me lembro, porque eu não falo a língua dessa mulher. E eu escutei toda essa história…

Em que língua?
Debora –
 Ela falava “lingala”.

E como você a escutou em “lingala”?
Debora –
 Você começa a se dar conta que a consigna do sofrimento não precisa de muitas palavras. Até porque a pessoa está em estado de choque, então ela tem muita dificuldade de se expressar. Normalmente ela expressa com o corpo, com o olhar, com a forma de levantar o pescoço, a forma de gesticular. E eu me lembro de ter pedido ajuda para escrever a história dela, porque eu precisava descrever para poder organizar algumas coisas mais práticas. Onde ela vai dormir agora? O que ela pode comer? Onde ela pode se vestir? Nesse lugar a postura e a forma de se vestir são muito importantes. Para você ter uma ideia, as pessoas entram no rio antes de irem para o hospital: lavam todas as roupas, colocam na margem do outro lado e ficam nuas dentro do rio esperando secar, porque só têm uma peça de roupa. Quando as roupas secam, elas saem do rio, vestem e só então vão ao hospital. Mesmo depois de um estupro, depois de terem sido baleadas, depois de terem sido mutiladas. Elas têm uma preocupação em chegar limpas e a vestimenta é importante.

E como você fez para ajudar uma mulher que tinha vivido isso?
Debora –
 Eu perguntei a ela o que a fazia feliz antes disso tudo acontecer. Se ela lembrava a última vez em que tinha sido feliz. E ela disse: “Hoje eu não lembro, mas eu vou tentar me lembrar”. E eu falei: então, Marie, você pode voltar amanhã? E ela disse que podia.

E ela voltou?
Debora –
 Depois disso, eu fui encontrar outras mulheres da comunidade. Contei a história dela. E as mulheres a acolheram dentro de casa. São pessoas que moram em quatro, cinco, num espaço do tamanho do meu banheiro. Não tem divisória, não tem cozinha, é fogo de chão do lado de fora da casa, faz muito calor. E as mulheres encontraram um lugar para ela dentro de casa. Do tipo: “Você é bem recebida dentro da nossa comunidade”. E ela ficou muito surpresa. Ela nunca vira essas pessoas na vida e essas pessoas estavam dispostas a acolhê-la. E no outro dia ela voltou e me agradeceu muito. Ela disse: “Eu me lembrei da última vez em que eu fui feliz”. E quando foi, Marie? Ela falou: “Foi quando eu dancei”.

Nossa…
Debora –
 E aquilo ficou… dançou, tá bom. Eu fiquei pensando em como montar um grupo terapêutico, porque a Marie foi só a primeira. Como ela, nessa missão, houve mais de 200 mulheres que eu atendi, sozinha, num espaço de um mês e meio, dois meses. Mulheres e meninas violentadas. Meninas de dois anos de idade, de três anos de idade, de 10, 15, que eram violentadas, estupradas, mutiladas. E eu lembro que o grupo terapêutico nessa comunidade foi de dança. Elas dançavam e com a dança elas contavam a sua história. Era muito bonito. Eu não entendia nada da música, mas eu sabia que a música tinha um conteúdo muito triste. Elas dançavam sempre numa roda e junto com a música cada uma contava a sua história. E choravam e se abraçavam e continuavam contando sua história e dançando. Para mim, cada dia era um ensinamento diferente. Ok, o sofrimento existe, a dor é frequente, a dor é permanente, mas quando a gente está no coletivo isso tudo é dividido. E a dança mostrava isso: a gente não pode parar. E velhinhas de 70, 80 anos, dançavam e saltavam indo até o chão e levantando de novo, porque as danças são muito expressivas. Nessa época, eu já tinha uma tradutora. Ela falou: “Vou te contar uma das músicas”. E era assim: “Quando eu cheguei aqui razão nenhuma eu tinha para viver, agora eu tenho não só uma razão, mas tenho uma família de novo. Tudo eu perdi, mas se Deus quis que assim eu tivesse uma comunidade e uma nova família, então eu fui aceita, e assim eu aceito. E assim agora tenho uma nova vida, uma nova razão para viver”.

É terrível e lindo ao mesmo tempo. Como você sai de uma missão como essa? Como você vive depois de ter vivido isso?
Debora –
 Eu saí arrasada. Caramba, não fiz nada por essas pessoas. Tinha muita coisa que precisava ter sido feita. Elas precisam de paz. Não existe saúde, não existe felicidade num lugar onde você não tem paz, o princípio básico da humanidade. Na época eu trabalhava com a seção belga. Então, cheguei à Bélgica muito mal. Fui fazer meu relatório e contei sobre o número de pessoas que estavam sendo violentadas. Disse que a gente precisava fazer alguma coisa. E falei: “Eu estou mal porque não me importo de passar a minha vida inteira atendendo essas pessoas em forte sofrimento, mas eu me importo de saber que amanhã, depois de amanhã, e depois e depois e depois elas vão continuar sofrendo esse mesmo tipo de violência se isso não parar. Agora a primeira necessidade é uma equipe de paz. Como fazer isso?”.

E como fazer?
Debora –
 Nós temos jornalistas dentro da organização. Temos um compromisso com a denúncia quando existe qualquer tipo de ferimento aos Direitos Humanos. Me encaminharam para o serviço de comunicação e falaram: “A gente vai fazer alguma coisa”. Eu saí de lá, e os jornalistas foram. E fizeram reportagens e documentários. Divulgaram. Um ano e pouco depois, em 2010, eu voltei para lá. Normalmente depois de um estupro, no Congo, uma mulher não pode mais casar. Não tem mais o direito de casar porque ela não é mais virgem e porque ela já teve a sua primeira experiência. Então ela é alguém que está “suja”. E um dos trabalhos era mostrar para os homens e a comunidade que não, ela não estava suja. E que era preciso rever algumas estruturas da cultura. E, quando voltei, eu perguntei: “Onde está o meu grupo?”. E a resposta foi: “Todas casaram”. E elas vinham à minha sala de consulta mostrar seus bebezinhos, apresentar o marido, os sogros. Vinham com a família inteira. Eu falei: “Gente, não acredito!”.

Reinventaram a vida….
Debora –
 Literalmente. Reinventaram uma forma de viver. E elas estavam felizes. E eu fiquei muito feliz.

Essa missão do Congo foi a mais dura para você?
Debora –
 Sim, no sentido de que nós éramos a única organização que estava lá. O medo era perene a noite inteira. Eu tinha muito receio, porque eu via as mulheres, a forma como eram cometidos os estupros. E eu era a única mulher nessa missão. Eram 14 homens e eu. Então eu sabia que, se os rebeldes ugandenses entrassem na nossa casa, o desastre e a violência que eu atendi o dia inteiro aconteceriam comigo. Então a dor era constante. Foi um mês e meio, quase dois meses, de dor 24 horas. De dia, o dia inteiro, enquanto existia luz, a dor era compartilhada, minha com elas. E durante a noite, o medo – aí o medo era só meu. Quase a noite inteira sem dormir, pensando. Cada folha que mexia do lado de fora do quarto, eu pensava: podem ser eles. Porque a gente não sabia até onde os ataques poderiam chegar. Um dos ataques chegou a sete quilômetros de onde a gente estava. Muito perto mesmo. Barulho de tiros, as pessoas gritando, fogo, então a gente sabia que, se chegasse à comunidade, nós também seríamos alvo.

E como era esse medo?
Debora –
 Bom, luz a gente já não tinha. A gente usa sempre lanternas na cabeça para se locomover, para ir à latrina, para qualquer coisa. E o meu medo era de tudo. Medo de dormir profundamente, porque sabia que, se eu dormisse um sono mais profundo, perderia a possibilidade de me proteger, se houvesse necessidade de fugir. Ao mesmo tempo, o medo de…ok, mas vou fugir para que lado? Tinha medo de sofrer uma violência sexual, que é uma coisa que me toca muito. Desde que me formei eu trabalho com violência sexual. Aqui, inclusive, em Sergipe. Foi um dos motivos de eles terem me chamado para a organização – por ter uma expertise de trabalho com mulheres violentadas. E é uma coisa que sempre me tocou muito porque, quando você escuta o sofrimento de alguém que vivenciou uma violência sexual, é como se você compartilhasse a história dessa pessoa, e você acaba vivenciando um pouco da história dela. E as histórias são muito doídas. Alguém que entra dentro de você é alguém que te invade, te dilacera. Como elas mesmas dizem: “O meu braço, você pode quebrar, ele vai se reconstituir. Mas por você ter entrado dentro de mim, eu nunca vou poder te tirar”. E essa é uma dor muito forte. Então, o meu receio também era de estupro. Inclusive, pelos estupros serem coletivos, as mulheres têm fístulas depois. O canal da vagina e do ânus viram um canal só. Então você não consegue mais conter nem sua própria urina nem suas fezes. Você está andando na rua e sente que sua urina está saindo. É muito triste. E há ainda a vergonha de ir a um espaço público, por exemplo. Elas vão ao hospital e não querem sentar na cadeira. Você diz para elas: pode sentar! “Mas eu não quero…” Até eu me dar conta de que elas não se sentavam porque tinham medo de fazer xixi ou de fazer cocô em cima da cadeira, porque elas não conseguem sentir quando vai sair… Uma delas me contou que ficam de um a dois dias sem comer nem beber nada antes de ir a uma consulta, para não fazer xixi nem cocô dentro do hospital, ou dentro da estrutura de saúde. Você imagina o sofrimento de alguém que, a cada vez que tem de ir a um espaço coletivo não pode comer nem beber um ou dois dias antes? É muito sofrimento. Mas é interessante, porque também tem beleza nesse lugar, e também tem riso, também tem desejo de vida. É um negócio impressionante. A missão tem de ser feita com todos os sentidos: o que você escuta, o que você vê, o que você toca, o que você sente, o que você cheira…

Como é o cheiro?
Debora –
 Cheiro é uma coisa difícil de contar para as pessoas. O cheiro da morte é um negócio difícil de descrever. Como você descreve o cheiro da morte? Cheiro de ser humano. No Brasil, a gente tem muito pouco cheiro de ser humano. Porque ser humano não cheira bem, o ser humano cheira mal. Tipo: fique sem colocar seu desodorante, sem passar xampu no cabelo, sem passar um bom sabonete no corpo, sem passar um creme, um protetor solar. E sinta seu cheiro daqui a uma semana. É um cheiro forte de gente. E eu vivo sentindo cheiro de gente, em todos os lugares. Normalmente, nos lugares aonde eu vou não existe xampu, não existe sabonete, não existe desodorante. Cheiro de ser humano é um negócio impressionante. E o cheiro do medo do ser humano é uma coisa forte, também. E o cheiro da morte, mais ainda. No Haiti, depois do terremoto, havia muitas pessoas amputadas. E o cheiro daquele sangue, dois, três dias depois… O cheiro daquelas pessoas em decomposição, ainda vivas, é um cheiro muito forte. Muito, muito forte, que não dá para descrever. Posso descrever para as pessoas o rosto, a postura de dor, de sofrimento, mas o cheiro eu não consigo descrever. É uma das coisas mais fortes que eu senti naquela missão. O cheiro da morte. Primeiro, você começa a perder a capacidade de sentir seu próprio cheiro, imagina o cheiro dos outros. E, depois de um tempo, você começa a perceber que tudo cheira, inclusive o medo, a morte, a dor, a felicidade – tudo tem seu próprio cheiro. E às vezes é bem doído.

E como você se vira em cada volta de missão? Porque eu faço algumas reportagens complicadas, nem perto da sua experiência, mas mesmo assim acho complicado voltar e sofro bastante. Como você faz?
Debora –
 Eu preciso voltar para um lugar onde esteja sozinha. E por isso Aracaju é uma ótima escolha, porque é calma e tranquila. Normalmente eu tenho alguns registros das viagens. Registro escrito, ou foto, ou alguma gravação. Eu revisito tudo isso, revejo as fotos, olho algumas filmagens, imagens que eu gravo, coisas que escrevi. Reviso tudo de novo. Não remexo, não reedito as coisas, o que está escrito está escrito. Naquele momento era tudo o que eu podia fazer para elaborar minha vivência naquele lugar. E eu preciso revisitar várias vezes. E eu preciso de água. É a razão de eu estar morando aqui em Aracaju até hoje. Preciso de mar, preciso caminhar, andar de roller na praia, tomar minha água de coco. Uma parte do meu projeto terapêutico é dormir até quando eu tiver vontade de dormir, comer quando tiver vontade, beber quando eu tiver vontade…

Você deve ficar totalmente esgotada…
Debora –
 Na missão, você não sente que está cansada. Você está com a sua química corporal tão alterada, é tanta adrenalina, é tanta excitação, que você não percebe. E eu só percebo quando entro no avião e me dá um sono incontrolável. Não escuto nada. Eu lembro até de uma vez em que eu perguntei: “Moço, já decolou?”. E ele começou a rir: “Faz mais de 15 horas, e nós já estamos chegando ao Brasil”.

Você faz terapia?
Debora –
 Quando eu volto faço terapia todos os dias ou três a quatro vezes por semana. Brinco com minha terapeuta: “Eu trouxe um monte de coisas para digerir junto contigo”. Preciso desse tempo para digerir. Mas tenho feito missões muito rápidas, uma seguida da outra. Tipo: voltei da Líbia no dia 30 de março e agora estou indo para o Quirguistão. Só duas semanas entre uma e outra.

Dá tempo de digerir tudo o que você viveu em duas semanas?
Debora –
 A primeira semana é para digerir. A segunda, para me preparar. Tipo agora, né? Tem computador em todas as salas aqui de casa, porque eu estudo em um, cansei, vou estudar em outro. Estudo um pouco da cultura, um pouco da língua, alguns hábitos, e faço um pouco de preparação psicológica para o que vou vivenciar, para tentar avaliar até onde eu posso ir nesse lugar.

É fácil para você partir desses lugares?
Debora –
 É como eu te disse. Eu não costumo focar muito no que fica, mas no que eu estou indo buscar. Como no sofrimento: você tem sempre uma alternativa. Não é o evento, em si, que te causa a dor. É o significado que você dá a ele. Às vezes me incomoda partir sem ver algumas respostas. Mas sei que o mundo não para quando eu vou embora. O mundo continua. E aquilo que você faz quando você está lá tem reverberações dentro das pessoas e dentro dos espaços. Então, é uma dor do tipo: estou indo embora, não vi o resultado disso, mas alguém vai ver. E tomara que aconteça. Mas não chega a ser uma sensação ruim. Tem uma sensação boa: estou voltando para casa, vou dormir, vou tomar banho de verdade, vou comer… Tem uma sensação boa, como quando eu saio daqui. Dominic, o recrutador do Rio, me liga, dizendo: “Debora, temos uma missão para você”. Mas, para mim, parece que ele diz: “Debora, você acaba de acertar o bilhete premiado da Loteria Federal, e você ganhou sozinha!”. É a minha décima missão, mas cada vez que ele me liga é uma felicidade, uma sensação bem maluca. Ele está me dizendo que aconteceu um furacão, um terremoto, e eu estou muito feliz porque sou eu que fui chamada para ir nessa missão. Podia ser qualquer outra pessoa, mas escolheram a mim. E me dá uma sensação boa, sabe? Sou eu que estou indo vivenciar isso, dividir isso com aquelas pessoas, naquele momento, naquele lugar. É uma sensação maluca, tipo: o salário não é bom, as condições de vida não são boas, a segurança e a estabilidade são zero, e ainda assim eu sou a pessoa mais feliz do mundo cada vez que ele me liga dizendo que estou indo. Você lembra daquele programa em que a pessoa ficava com os ouvidos cobertos dentro de uma cabine? Aí o apresentador ficava fazendo propostas….(ela imita a voz) “Você troca sua casa na praia, uma cobertura, por uma caixa de fósforos?” E a pessoa: “Sim!!!” De olhos fechados, sem ouvir nada, a pessoa super feliz… sou eu. Você troca a sua vida de ir para a praia, tomar água de coco, caminhar na orla, ficar no seu apartamento, tomar um banho gostoso para tomar banho de caneca no meio do mato, dentro de um conflito armado, com risco de vida? Siiiiiim!!! (risos) O ser humano não é congruente nem lógico… então, ok.

Quando você olha para trás, lá na sua infância, você consegue enxergar a arquitetura que levaria você a esse caminho?
Debora –
 Eu sou filha de pessoas bem libertadoras, que nunca me podaram. Quando eu fiz 15 anos, escrevi uma carta para meu pai e minha mãe agradecendo por terem me dado asas para eu saber que podia voar para qualquer lugar e também raízes para saber que podia voltar sempre que precisasse. Meus pais sempre foram muito caseiros. Meu pai era relojoeiro e minha mãe, advogada. Nunca foram de viajar muito. Foi depois que eu comecei essa minha vida bem nômade, bem “caminhadeira” no mundo, que a minha mãe resolveu sair, virar nômade. Mas acho que a razão é que, além de eles terem sido muito libertadores, eles sempre foram muito confiantes na nossa escolha. Desde pequena eu escuto: “Na tua cabeça tem um guia. Se você acredita que dá para fazer, vai e faz”. Minha mãe sempre dizia e diz até hoje. “Mas o que você acha, minha filha, você acha que isso vai dar certo?”. E eu sempre acho que vai dar certo. “Então faz”, ela diz. “Você tem mais coisas dentro de você do que consegue me dizer. Então, se acha que dá para fazer, faz”. Desde pequena era assim.

Você e sua família são muito próximas até hoje?
Debora –
 Sim, mas somos muito autônomas. Meu pai faleceu em 2003. Minha mãe e minhas duas irmãs têm cada uma a sua vida, em cidades diferentes. Uma irmã é advogada e a outra, fisioterapeuta. Não fazemos o tipo meloso. Nós sabemos que para ter carinho e cuidado não é preciso estar fisicamente presente o tempo todo. Você pode cuidar e acariciar alguém, mesmo a distância. Nos encontramos sempre no Natal, em Santa Maria. Talvez seja isso que me dê facilidade para ir, mas para voltar também. Eu não tenho dificuldade para ir, mas também não tenho para voltar. Não me causa dor voltar para casa. Me causa felicidade: vou ficar em casa, vou dormir…

E você sabe que não está fugindo de nada…
Debora –
 Até porque eu me levo para todo lugar, né? Eu não tenho como fugir. Eu estou junto comigo o tempo todo.

E quais são seus sonhos?
Debora –
 Ser feliz. E é bem amplo isso, mas ao mesmo tempo é bem restrito. Não são grandes planos nem desejos. Eu vou fazendo coisas que me dão a sensação de estar viva, de estar feliz. Faço coisas que me dão a sensação de que ainda brilha o meu olho. Acho que quando eu olho para alguma coisa que eu sinto… hum, isso não faz meu olho brilhar… eu não fico. Posso estar ganhando o melhor salário do mundo, posso estar num lugar extremamente estável e confortável. Não é isso que me dá o grande prazer. É a sensação de estar viva. Acho que tem muita gente no mundo que não está viva. Está andando por aí, mas viva não está.

Como é estar viva?
Debora –
 Eu preciso dessa sensação boa, sabe, de encontrar os humanos por aí. Mesmo com tanta falta de humanidade nesses espaços para onde vou. Mas humano é isso tudo: essa crueldade, mas também essa riqueza; essa maldade, mas também esse acolhimento do outro. Quando você não tem nada, mas você ainda tem espaço para acolher alguém dentro de você, é interessante, bem interessante. E aí você se dá conta de que o material não é nada. Nada. Tipo… um terremoto pode terminar com tudo isso daqui. E aí quando as pessoas dizem (ela imita a voz): “Mas como, você acabou de comprar seu apartamento e já vai abandonar?”. Eu comprei um apartamento, não comprei uma algema para botar no meu pé. Um apartamento é um lugar para onde você pode voltar quando quiser, ele não vai fugir. Um dia ele pode desaparecer num terremoto, num maremoto, qualquer coisa pode destruir ele. E se esta for a razão para eu viver, talvez eu nunca consiga me recuperar da tragédia dessa perda. Mas acho que, quando o ser humano quer uma razão para viver, ele encontra. Seja uma pedra… talvez uma pedra dê razão para você viver. Você diz: essa pedra aqui é mágica, você vai encontrar a sua sorte com ela. Pegue nessa pedra e atravesse esse rio. Ok. Talvez essa pedra seja uma razão para viver.

O que você vive transforma você o tempo inteiro, claro. Mas há alguma transformação mais concreta que você possa contar?
Debora –
 Não sei… talvez tenha sido um encontro. Acho que agora é mais claro para mim. Eu acredito que você tem muitas coisas dentro de você, sempre. Todo mundo tem muita coisa dentro de si. Você só faz aquilo que cola. É como se fossem vários ímãs. O seu pólo só cola em coisas que você já tem. Se não, não colariam em você. Talvez com essas vivências tenham ficado mais evidentes em mim algumas coisas. Especialmente essa relação com o material. Nunca foi muito o meu forte dinheiro e coisas palpáveis. Mas agora faz menos sentido ainda. Bem menos. Eu lembro quando no Congo eu recebi as diárias, o dinheiro para sobreviver naquele lugar. E eu lembro que eu estava morrendo de fome, e era de tarde já, e não tinha nada para comer na casa. Lembro que eu perguntei: “Não tem nada aí para comer? Estou com muita fome”. E a moça disse: “Teve um ataque ontem, lá no mercado, e não sobrou nada. Não tem nada”. E você se dá conta do valor do dinheiro – um pedaço de papel que é significado puro. E, naquele dia, por exemplo, ele não significava nada. Eu não podia comprar nada com o meu dinheiro. Estava lá, com o dinheiro dentro do bolso e não tinha um grão de arroz para comprar porque não havia paz naquele lugar. E aí você começa a se dar conta de qual é o valor das coisas materiais. Você não come o seu dinheiro. Você não come o seu salário. Há outras coisas ali que têm uma importância e um significado muito maior e que não são coisas físicas. As coisas materiais te dão uma sensação de paz, mas é apenas uma sensação de paz, não é a paz. Não é a saúde, não é a riqueza. É uma sensação de tudo isso. Que pode ser destruída muito rapidamente. Talvez isso tenha ficado mais evidente para mim. Já tinha um significado, mas não tinha essa força que tem hoje.

O que mais você percebeu depois de viver no limite do humano?
Debora –
 Tem me caído muitas fichas sobre beleza e estética. Em cada lugar que eu vou, a sensação de percepção da estética e da beleza é muito diferente. E me encanta, me encanta mesmo.

Fiquei curiosa para visualizar mamãe Marie. Como ela é?
Debora –
 É uma mulher bem alta, magra, muito magra. Uma mulher que chama a atenção pelas cicatrizes no rosto. Ela é de uma tribo onde as mulheres fazem cortes muito bonitos no rosto quando ainda são jovens. A estética desse lugar é uma estética muito interessante. Nada a ver com a estética que a gente valoriza no mundo ocidental, mas uma estética muito forte, onde as marcas do rosto dizem de onde você vem e qual é a sua história. Como tatuagens. São cicatrizes que vão contando a história dessa mulher. Nesse lugar, as mulheres ou raspam o cabelo ou têm o cabelo muito comprido. Não existe o meio termo. Ou elas têm tranças enormes, que é um grande símbolo de beleza. Ou são mais velhas e têm o cabelo raspado, o que também é um símbolo de beleza.

E nos outros lugares onde você foi, como era vivida a questão da beleza? O que era o belo?
Debora –
 Em Masisi (Congo), as pessoas têm os dentes bem separados. E elas serram para ficar mais separados. Isso, esteticamente, é muito bonito. Eu sempre pergunto: “O que é um homem muito bonito aqui? Uma mulher muito bonita?”. Eu sou muito perguntadeira. E eu me lembro de um dos psicólogos nativos me contando: “Ah, uma mulher bem bonita aqui é a minha mulher. A minha mulher é a coisa mais linda do mundo”. O nome dele era Dodô. “Ah, Dodô, e como é a sua mulher?” E ele a descreveu: “Minha mulher é bem alta, é bem gorda, ela tem os dentes bem separados, e ela tem umas tranças…” Na minha cabeça ocidental, eu fiz a imagem de uma mulher com seios grandes, bem magra, acinturada, com bunda, perna firme. E eu fui fazer uma seleção, e a mulher dele também era psicóloga e concorreu. Quando eu a vi, levei um susto. Então essa é a mulher linda dele! Era uma mulher muuuuuito grande, muuuito gorda, com os dentes muuuito separados. Uma mulher bem masculina, bem forte. Bem, mas bem gordona. Do tamanho desse sofá (de dois lugares). E eu pensei: “Essa então é a beleza”. E depois eu fui perguntando para outras pessoas no caminho o que era uma mulher bonita, quem era uma mulher para casar… Porque eles sempre diziam: “Essa é para casar, essa não é para casar”. Aí eles respondiam: “Como assim, você não sabe o que é uma mulher para casar?”. Porque quando você está dentro da sua cultura, você acha que todo mundo compartilha, né? Uma mulher para casar, naquele lugar, é uma mulher grande, forte, que consegue suportar o peso de dois bebês sobre o próprio corpo, que consegue capinar e preparar a horta e que ainda tem forças para, quando chegar em casa, arrumar as coisas. Só que eles estão falando isso não com uma conotação machista, mas com uma conotação de: “Como você não sabe? É assim”.

Você, pequena e magra, estava completamente fora do padrão de beleza local…
Debora –
 Eu sempre estou completamente por fora dessa beleza. Eu sou o lado B da beleza desse lugar… (ri). Lembro que uma vez um homem de lá até falou: “Você é tão bonita, pena que seja muito magra. E os dentes, também, são muito juntinhos…” (ri muito) Eu fico pensando que uma pessoa que não se sente bem com sua aparência só precisa rodar o mundo. Você sempre vai encontrar alguém que procura exatamente você…. e nada mais do que você mesmo. Tem gosto, cultura e estrutura para tudo nesse mundo.

E a vivência da sexualidade também deve ser muito diferente, não?
Debora –
 Eu lembro que uma das aulas é sobre sexualidade. Como se desenvolve a sua sexualidade? Como casar depois de ter sido estuprada? Como ter uma relação sexual com alguém depois de ter sido violentada? E eu lembro de uma pergunta que me marcou muito, de uma mulher de uns 45, 50 anos: “Mamãe Debora, como é fazer amor com alguém com carinho?”. Você imagina alguém que é casado há muito tempo e que não sabe o que é fazer amor com alguém, ter cuidado e ser cuidada?

E o que você respondeu?
Debora –
 Eu expliquei um pouco como era no mundo ocidental, que nem todos os homens são carinhosos, nem todas as mulheres são carinhosas, mas que existem, sim, estruturas de carinho, que o carinho também é uma estratégia cultural. Mas que nem todas as culturas desenvolvem esse tipo de estratégia. Essa mulher então me disse: “Se eu mostrar para ele que estou sentindo prazer, vou ser considerada uma prostituta. Será que você pode falar com meu marido para dizer a ele que isso não é coisa de prostituta?”. Posso. Pode tudo num lugar desses. Todos os tipos de intervenção são possíveis. Existem, sim, várias consignas, mas não existe um padrão que tem de ser seguido. Cada pessoa é um mundo de necessidades e um outro mundo de possibilidades. E você tem de saber que tipo de necessidades tem esse mundo e como fazer essa ponte com o mundo das estratégias de cada um.

E você falou com o marido dela?
Debora –
 Falei. Foi interessantíssimo, porque os homens não falam nesse lugar, né? Cabeça baixa… ainda mais com uma mulher. Imagina um homem negro, afro, subsaariano, falando para uma mulher sobre sua vida sexual. Não sei se por sorte ou azar, nesse lugar as mulheres brancas são consideradas assexuadas. Não somos nem homens, nem mulheres. Acho que isso facilitou bastante. E eu lembro que ele disse assim: “No mundo dos brancos funciona assim?”. Eu falei: “Não no mundo de todos os brancos, mas a gente não precisa dizer que tem um mundo de branco e um mundo de negro, mas que isso pode se constituir das duas formas. Inclusive, no mundo de onde eu venho existem homens brancos e homens negros. Eu não vivo num mundo só de brancos. Vivo num mundo onde existem, sim, muitas pessoas negras, e que algumas sentem prazer, outras não sentem. Mas que isso, sim, é possível. Você não precisa ser profissional do sexo para você sentir”. E eu me lembro das perguntas dela: “Mas eu faço como?”. Porque nesse lugar é muito diferente. Os prazeres são diferentes. A forma de sentir prazer é diferente.

E como é?
Debora 
– Aqui você vai à farmácia para comprar um lubrificante para uma relação sexual. Lá é diferente. Você compra pílulas ou você usa ervas para estar ressecada na relação sexual. Então, normalmente, um presente de casamento é ou uma pílula, para você se ressecar, ou ervas para você secar sua vagina antes da relação sexual. Para que sua vagina esteja bem seca na hora de ter uma relação. Então você imagina a dor de um estupro, né? Porque a mulher obviamente já está ressecada.

E o prazer é por estar seca?
Debora –
 Não da mulher, o prazer do homem. Quando eu pergunto para elas se sentem prazer, elas dizem: “Não, sinto dor”. É uma das razões de o número de casos de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) ser muito alto. Elas já têm muito mais fissuras, muito mais contato de sangue, muito mais contato de secreção. Você precisa então dar algumas dicas sem interferir diretamente em uma cultura, porque esse não é o meu trabalho, nem o trabalho de ninguém, o de desconstruir uma estrutura que está dada. Mas quando uma pessoa diz: “Essa estrutura não me dá prazer, essa estrutura me machuca, essa estrutura me fere, me causa sofrimento, bom, aí minha intervenção é possível”. E funcionou. Para essa pessoa, pelo menos, funcionou. Para esse casal.

Como você sabe que funcionou?
Debora –
 Ela me disse. Bateu na janela do meu quarto e sussurrou: “Funcionou!”. (risos)

Como é para você esse contato com o mal humano? Esses homens que queimam, mutilam, estupram e matam sem sequer conhecer. Nem mesmo é pessoal. Como você lida com isso?
Debora –
 Eu sempre acho que tudo tem uma razão, um significado. Por mais que a gente não entenda. Eu imagino que mesmo essas pessoas têm dentro da cabeça delas uma razão. Estou entrando no meu terceiro ano de MSF e ainda não consegui entender essa estrutura de maldade. Se me falarem: “Você precisa fazer um atendimento de uma pessoa do LRA”. Eu vou fazer. E vou tentar entender com ele o que está acontecendo e como se estrutura isso. Eu até brinquei uma vez com meu chefe. Eu falei: “Me deixa fazer o atendimento deles. Eu preciso entender o que está acontecendo”. Não consigo entender como alguém consegue fazer isso com uma menina de 11, 12, 13 anos. Ainda para mim é incompreensível. Mas eu gostaria de entender. Eu sempre acho que tem, sim, uma razão, que tem uma história atrás disso, e que talvez isso explique. Que não justifica, não justifica. Você pode me contar 100 mil histórias. Eu acho que isso explica, sim, mas não justifica. Mas… ok. O meu trabalho é este: atender as pessoas que ali chegam. Não importa de que lado que elas vêm, não importa que tipo de acontecimento se passa na vida delas ou se passou. O meu trabalho é aliviar o sofrimento humano, seja ele de onde venha, seja ele a cor que tenha. E dá para fazer isso. É a razão de eu continuar. Porque se eu achasse que não dava para diminuir o sofrimento, que não dava para ajudar as pessoas a escolherem novas estratégias de felicidade para a vida, talvez eu não estaria nesse lugar. De todos essas nove missões, eu não me lembro de alguém dizer: “Eu não encontrei uma razão para viver”. Muitas pessoas, principalmente no Haiti, diziam: “Eu não quero mais viver”. Na África, já é mais difícil você encontrar essa fala. Eles dizem: “Eu não tenho nenhuma razão para viver”. Mas estão lá, com aquele olhar do tipo: “Mas me ajuda a encontrar?”. Me ajuda a fazer a metamorfose desse sofrimento em vida mesmo, em felicidade? E às vezes a felicidade pode ser um grupo de dança, pode ser uma caminhada coletiva em algum lugar, pode ser um abraço… Como uma mulher de 70 anos me disse uma vez: “Nunca ninguém me abraçou”. Ela tinha sido estuprada e seu corpo era todo arqueado, enrijecido. Em cada lugar o estupro tem um significado diferente e, para aquela etnia, violentar uma mulher mais velha conferia poder ao estuprador. Então eu a abracei. O afeto pode, sim, fazer uma grande diferença. Eu não vou mudar o mundo, com toda certeza, mas eu posso mudar o mundo de uma pessoa durante algum tempo que pode ser uma hora, duas horas, 24 horas. Tá bom, sabe? Se todo mundo tiver uma hora, ao menos, de intensa felicidade, um sentimento bom de acolhimento, tá bom. É suficiente. Se em 70 anos ela nunca recebeu um abraço, por que eu não posso fazer uma grande diferença com um abraço, com um toque?

E como você lida, Debora, com a indiferença? Explico: você volta para o Brasil e muita gente não está nem aí, não é? A maioria das pessoas, de fato, não está nem aí para o sofrimento do outro. Se interessa apenas em cuidar da própria vida ou no máximo daqueles que considera sua família de sangue.
Debora 
– Isso é bem difícil. Quando eu volto, as perguntas são sempre as mesmas. Mas as reações também são muito parecidas. As perguntas vêm do encantamento de alguém que escuta uma história de filme. O interesse termina quando termina a mesa de bar, ou quando termina a conversa na rua ou na praia. Isso me assusta um pouco, sabe? Até onde você se sente tocado para mudar uma história? Não estou dizendo que todo mundo precise fazer esse trabalho, nem que todo mundo precise ser muito militante, não é isso. Mas é uma sensação de que as pessoas se conformam com tão pouco, sabe? Muitas choram, até. Mas quando eu termino de contar é como se desligassem a TV. Ou saíssem da sala de cinema. A tristeza dura a emoção daquela cena. E é uma pena que eu não consiga fazer com que as pessoas sintam a dor daquelas pessoas naquele momento.

Parece que não há conexão, não é?
Debora –
 Uma inquietação, pelo menos… Não quero que o mundo inteiro seja triste, não quero que o mundo inteiro fique mal, não é isso. Mas como tocar o lado A do mundo? Como tocar essas pessoas que estão dentro desse contexto estável, dentro de suas vidas tranquilas, de seu carro novo? Ok, como fazer com que essas pessoas pensem em uma forma de fazer do mundo um lugar um pouco diferente? Não quero que todas estejam na África ou que todas vão para o Haiti, mas acho que cada um pode fazer uma coisa muito pequena para poder mudar isso, sabe? Coisas bem pequenas, mesmo, que você pode ir mudando. Tipo: eu estou te contando que tem trabalho escravo nesse lugar. Ok, você pode não comprar um produto desse lugar. Ou estou te falando que nesse lugar existe determinado tipo de violência. O que você pode fazer com isso? Eu acho que você sempre consegue fazer alguma coisa. Dentro do nosso país, mesmo, tem muita coisa para ser feita e acho que a gente não faz porque essa tranqüilidade – ou essa acomodação com roupagem de tranquilidade – dá uma sensação de conforto para as pessoas.

E como você lida com isso?
Debora 
– Isso ainda me inquieta. Essa roupa não é o meu número, sabe? Me dá um desconforto. Mas enquanto eu não sei o que fazer com isso, eu vou trabalhando com esse outro lado. Não dá pra fazer tudo ao mesmo tempo. Isso é o que eu consigo fazer nesse momento: contar essas histórias quando eu volto e apenas quando me perguntam, porque se não me perguntarem eu não digo nada. Não tenho essa vontade de dizer para todo mundo: “Sabe o que eu estou fazendo?”. Não tenho. Mas, se vierem me perguntar, estou sempre disposta a falar. Mesmo que às vezes seja repetitivo.

E isso não te dá uma solidão muito grande na volta?
Debora –
 Acho que nas primeiras duas, três missões, eu me sentia um pouco solitária. Eu queria contar mais detalhes. Mas as pessoas querem ouvir até certo ponto. No ponto em que começa a tocar muito o sentimento, o sofrimento, a angústia, e que elas não conseguem traduzir isso em uma ação ou um significado mais concreto, elas começam a ficar desconfortáveis nessa escuta. Então nessas primeiras duas, três missões, era um pouco… como assim? As pessoas não querem ouvir mais? Mas hoje eu já compreendo. Ok, elas não escolheram esse mundo para elas, eu não tenho o direito de forçá-las a um mundo que não querem. Cada um tem a sua escolha. Inclusive, a escolha de dizer: “Eu quero viver nesse outro mundo”. E a alienação também traz felicidade. Você não saber de tudo, você não saber de uma série de penúrias e de desgraças do mundo também te traz um conforto e uma sensação de felicidade de…. Ok, tudo o que eu sei é que meu filho está bem alimentado, dormindo num bercinho bonito, que acabei de reformar o quarto dele com um arquiteto. Está tudo ótimo. Tipo, a alienação também é isso, também traz conforto. Mas eu não escolhi esse lado. Eu escolhi saber, eu escolhi ver.

Como é escolher ver?
Debora – 
Rico, bem rico. É uma sensação de ter muita gente dentro de mim. Eu já sou muitas, né? Sou muitas mulheres e muitos homens também, sou muita gente. É uma sensação de… (permanece um pouco em silêncio) estar muito plena. Plena de história, de tudo. Plena…

Arquivo/MSF
Fábio Rossi/MSF
Arquivo/MSF

 
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)

“Dirijo”, “Dega”, “Meri’i” ou, depois da proibição, “Maconha”

“Disseram pros caboclos num plantar e eles pararam de plantar. Disseram que prejudicava muito eles. Ai eles foram deixando. Ai a cachaça ficou no lugar”

 – Luis Fernandes, Igarapé Asú

Dirijo (2008)

Duração: 13 minutos

Direção: Organização dos Professores Indígenas Mura e Raoni Valle

O documentário “Dirijo” começa com uma longa lista de nomes para uma determinada erva: “Dirijo”, “Dega”, “Meri’i” ou, depois da proibição, “Maconha”. Era utilizada amplamente por comunidades amazonenses para curar mal-estar (“As vezes o caboclo está meio mal, fazia um chazinho com duas folhas e ele comia que dava gosto”), dar paciência pro trabalho (de roçado ou de pesca) ou apenas para uso recreativo, algo estabelecido dentro da comunidade e com importante função de sociabilidade (é interessante notar, a partir dos depoimentos do documentário, os relatos de como era consumida a erva: em roda).

Era mais uma planta, que fazia parte dos usos e da sabedoria tradicional. A metáfora descrita de “dar paciência para o trabalho” é perfeita, e faz pensar sobre o que são usos sociais de uma substância psicoativa. Dentro do modo comunal de trabalho, sem as pressões de horário e produtividade, que não as da própria sobrevivência, o dirijo contribuía para, conforme relato, fazer perder a noção das horas e o trabalho andar melhor. Outro aspecto interessante é que a produção de cannabis não era vendida, senão permutada por outros bens de consumo, como peixe e farinha.

No entanto, a razão entorpecida é incansável quando se trata de expandir seus tentáculos proibicionistas. Missões da FUNAI e de um certo capitão, proibiram o consumo e o plantio ao final da década de 50. Um retrato impressionante de como o único braço do governo que chega com eficiência nas comunidades mais distantes, ou simplesmente periféricas, é o da repressão. Algo como se chegassem alienígenas na Terra e decretassem: “vocês estão terminantemente proibidos de consumir manteiga porque é ilegal na nossa galáxia”.

O que sobrou da enorme sabedoria dos usos tradicionais? Da forma lúdica de uso? Saudades, histórias e a “marvada da cana”, queimando as tripas das comunidades e acabando de forma lenta com a história desses povos.

Não deixe de ver esse importante relato e tudo que ele tem para nos ensinar:

 

GlobalRevolution – 19 de junho nas praças do mundo

takethesquare.net

Somos os indignados, os anônimos, os sem voz. Estávamos em silêncio mas escutando, observando. Não para olhar para cima, onde estão os que ficam com as rendas do mundo, senão para os lados, onde estamos todas e todos, procurando o momento para nos unir.

Não nos representam partidos, associações ou sindicatos. Também não queremos que seja assim, cada qual representando a sí mesmo. Queremos pensar entre todos como criar um mundo onde as pessoas e a natureza estejam por cima dos interesses económico. Queremos idealizar e construir o melhor dos mundos possíveis. Juntos podemos e realizaremos.
Sem medo.

As primeiras faíscas começaram nos países árabes, onde centenas de milhares de pessoas tomaram as praças e ruas relembrando a seus governos que eles (o povo) são o verdadeiro poder. Logo foram os islandeses quem saíram às ruas para poder se expressar e decidir seu futuro; o povo espanhol não demorou em tomar as praças dos bairros, vilareijos e cidades. Agora a chama se estende rapidamente pela França, Grécia, Portugal, Itália e Turquia, enquanto chegam ecos de América e Ásia e novos focos aparecem a cada dia onde seja. Se os problemas são globais, a revolução será global, ou não será. É hora de recuperar os nossos espaço públicos para debater e construir entre todas e todos o futuro.

O dia 19 de Junho convocamos à #Globalrevolution . Convocamos à ocupação pacifica das praças públicas e à criação de espaços de encontros, debates e reflexão. É nosso dever recuperar o espaço público e decidir juntos o mundo que queremos.
Tome a praça!!! Tome as ruas!!! #Globalrevolution

People of the World, rise up!!!
+ Infos:
https://takethesquare.net/